No Brasil, no ano de 2023, foram diagnosticados mais de 19 mil novos casos
O mês de Janeiro Roxo é dedicado à conscientização sobre a hanseníase, uma doença milenar que ainda afeta milhares de pessoas em todo o mundo, carrega muito preconceito e principalmente desinformação. No Brasil, estatísticas oficiais levantadas por órgãos de saúde, apontam que de janeiro a novembro de 2023 foram diagnosticados 19.219 novos casos de hanseníase. Esse número corresponde a um aumento de 5% nas notificações para a doença, quando comparadas ao mesmo período de 2022.
Apesar do mês ser voltado para trabalhos de conscientização sobre a hanseníase, a Fundação Oswaldo Cruz, destaca que o dia 26 de janeiro é marcado como Dia Mundial Contra a Hanseníase, uma doença cercada de preconceitos e estigma, que é contagiosa, mas, tem controle e tratamento oferecidos gratuitamente pelo SUS (Sistema Único de Saúde).
Para ajudar a acabar com o preconceito dessa doença, que pode prejudicar um paciente, O Pantaneiro foi até a Secretaria Municipal de Saúde de Aquidauana, onde conversou com a enfermeira Giselle Walkiria Tada de Melo Pinheiro, coordenadora dos programas de controle da tuberculose e hanseníase e do programa de IST (Infecções Sexualmente Transmissíveis) e Aids. Nessa entrevista, a profissional trouxe informações importantes para eliminar o preconceito, esclarecer a população e estimular um enfermo a vencer o problema.
Pantaneiro - O que é o janeiro roxo?
Giselle Tada - Dia 26 de janeiro é o Dia Mundial Contra a Hanseníase. Por isso, o mês de janeiro ganhou a cor roxa para alertar e conscientizar a sociedade sobre o combate à hanseníase.
O Pantaneiro - Como a prefeitura e a Secretaria de Saúde de Aquidauana irão trabalhar esse tema?
Giselle Tada - Para esse mês, faremos a capacitação dos profissionais médico e enfermeira, sobre avaliação clínica especial para os agentes comunitários de saúde, direcionando para a educação continuada do profissional, para melhoria na qualidade de atendimento.
O Pantaneiro - O que é a hanseníase?
Giselle Tada - A hanseníase é uma doença infecciosa de evolução crônica que, embora curável, ainda permanece endêmica em várias regiões do mundo, principalmente na Índia, no Brasil e na Indonésia. É causada pelo Mycobacterium leprae (M. leprae), um bacilo álcool-ácido resistente, de multiplicação lenta.
O Pantaneiro - Em Aquidauana há casos de Hanseníase, há estatísticas?
Giselle Tada – No momento estamos com 4 casos em tratamento/acompanhamento. Enquanto programa municipal, as ações vão além do mês de conscientização. Trata-se de combate contínuo para esse ano e como ação do programa traçaremos e alinhamos a linha de cuidado da pessoa acometida de hanseníase para que possamos prestar atendimento de qualidade em tempo oportuno, pois o objetivo maior é a manutenção de melhoria da qualidade de vida do usuário.
O Pantaneiro – A hanseníase é contagiosa e tem cura?
Giselle Tada - A doença, cercada de preconceitos e estigma, é contagiosa, mas, tem controle e tratamento oferecidos gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O tratamento dura em geral de 6 a 12 meses conforme a classificação da doença. É transmitida de pessoa para pessoa, através das vias aéreas superiores. O avanço das pesquisas comprovou que a hanseníase nem é uma doença tão contagiosa assim. Terapias foram desenvolvidas e, em 1981, a OMS passou a recomendar a poliquimioterapia. Em muitos países desenvolvidos, a hanseníase já foi erradicada.
O Pantaneiro – É possível prevenir? Como proceder?
Giselle Tada – Uma evidência importante; qualquer mancha suspeita deve se procurar atendimento profissional pois o objetivo maior é o diagnóstico precoce e o tratamento oportuno não apenas no sentido epidemiológico, para quebrar a cadeia de transmissão, mas para prevenir as incapacidades físicas que podem surgir com a doença não tratada. Principais sintomas: manchas esbranquiçadas, avermelhadas ou amarronzadas em qualquer parte do corpo com perda ou alteração de sensibilidade. A principal fonte de infecção são indivíduos acometidos com a doença e não tratados. Portanto, uma das principais ações para prevenção é o diagnóstico precoce, tratamento dos casos confirmados, avaliação e orientação dos contatos. Como foi dito anteriormente, o bacilo (bactéria) é de multiplicação lenta e mesmo que a transmissão se dê pelo ar, requer contato constante.
O Pantaneiro – As pessoas que contraem a doença ainda hoje são vítimas de preconceito?
Giselle Tada - Esse estigma, porém, vai muito além da denominação. Associada ao pecado na Antiguidade, a hanseníase hoje evidencia desigualdades sociais, afetando sobretudo as regiões mais carentes do mundo. Por isso, o preconceito persiste e muitas pessoas ainda acreditam que apenas os pobres adquirem a doença. No entanto, apesar de ser transmitida mais facilmente quando as condições sanitárias e de habitação não são adequadas, a hanseníase não escolhe, nem nunca escolheu, classe social. É uma das enfermidades mais antigas do mundo!!! E como antigamente não havia tratamento, as pessoas eram segregadas em leprosários separadas da sociedade pelo medo do contágio.
É importante ressaltar que, a doença não é transmitida com contatos e encontros físicos pontuais, como um toque, conversa ou encontro. Para haver contaminação é necessário conviver sem tratamento e diariamente por um período superior a 2 anos. O processo garante a cura da doença, interrompe a transmissão e previne avanço de sequelas físicas.
A hanseníase é uma doença infectocontagiosa, que se apresenta também como um dos principais desafios de saúde pública no Brasil e o diagnóstico precoce é fundamental para a redução da transmissão e do risco de desenvolvimento de incapacidades físicas.
Diante dessa seriedade, é importante alertar a toda a sociedade para ficar atenta aos sinais dessa doença, uma vez que o Brasil é responsável por cerca de 90% dos novos casos diagnosticados nas Américas, sendo o segundo país a diagnosticar mais casos no mundo, ficando apenas atrás da Índia. Estados como o Tocantins, Maranhão, Mato Grosso, Pará e o Piauí são os que apresentam os maiores índices de casos da doença.
A hanseníase é uma doença milenar e estudos científicos debatem sobre sua origem ter sido na Ásia ou na África, sendo que na Índia, China e no Japão, ela é conhecida há mais de 3 mil anos. Documentos do Serviço Nacional de Hanseníase há estudos que trazem a informação sobre sua existência no Egito há quatro mil e trezentos anos antes de Cristo, como consta num papiro da época de Ramsés II.
Diante do grande preconceito que sofriam os pacientes da doença, no ano de 1960 diversos especialistas e autores sobre esse mal apresentaram a proposta de mudança de nome de lepra para hanseníase, numa campanha que buscava eliminar fantasias sobre o problema, além de favorecer a educação para a saúde. O nome se inspira na bactéria “bacilo de Hansen” a qual pode ser transmitida de uma pessoa para outra.
A doença transmitida pelo Mycobacterium leprae ou bacilo de Hansen atinge os nervos e uma das primeiras sequelas é a perda de sensibilidade da pele. Em muitos casos também há perda ou grave comprometimento dos movimentos que, em casos mais severos, pode levar à amputação. Atualmente, a hanseníase tem tratamento e cura.
É muito importante que toda a população esteja atenta e procure atendimento médico quando houver desconfiança, porque a hanseníase, por atingir os nervos, uma das primeiras sequelas é a perda de sensibilidade da pele. Em muitos casos também há perda ou comprometimento severo dos movimentos que, em casos mais graves, podem levar à amputação. Para que o diagnóstico seja feito quanto antes, é importante se manter atento aos sinais e sintomas apresentados pelo corpo, como:
Manchas com perda ou alteração de sensibilidade para calor, dor ou tato:
Formigamentos, agulhadas, câimbras ou dormência em membros inferiores, ou superiores;
Diminuição da força muscular, dificuldade para pegar ou segurar objetos, ou manter calçados abertos nos pés;
Nervos engrossados e doloridos, feridas difíceis de curar, principalmente em pés e mãos;
Áreas da pele muito ressecadas, que não suam, com queda de pelos, (especialmente nas sobrancelhas), caroços pelo corpo;
Coceira ou irritação nos olhos;
Entupimento, sangramento ou ferida no nariz.
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