VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER
Em pleno Agosto Lilás foram seis mulheres assassinadas em apenas um mês. Entre elas está Marta Florentino Godoi, de 40 anos, morta em Aquidauana no dia 23 de agosto.
Agosto termina nesta segunda-feira com uma contradição difícil de ignorar em Mato Grosso do Sul. Enquanto o mês é dedicado à conscientização, à prevenção e ao enfrentamento da violência contra a mulher, agosto de 2026 se tornou o mês com o maior número de feminicídios registrados no Estado desde o início da série histórica.
O crime também devolveu ao município uma marca que não aparecia nas estatísticas havia aproximadamente sete anos. A última vítima de feminicídio registrada em Aquidauana havia sido Rose Meire Fermino de Andrade Mendonça, a pastora Rose, assassinada pelo ex-marido durante um culto religioso, em 27 de agosto de 2019.
A coincidência chama atenção: os dois casos ocorreram em agosto, separados por sete anos. E enquanto Aquidauana volta a enfrentar um crime que durante anos não fazia parte de sua estatística, Mato Grosso do Sul encerra o mês diante de um dos mais preocupantes indicadores de violência letal contra mulheres.
Marta é a nova vítima em Aquidauana
Marta Florentino Godoi foi assassinada no domingo, 23 de agosto, em uma residência na região da Vila Trindade, em Aquidauana.

Segundo as informações divulgadas durante a investigação, ela foi atacada com golpes de faca e também sofreu um golpe de enxada. O principal suspeito é o companheiro da vítima, que deixou o local levando a filha do casal, de cinco anos. O homem foi localizado horas depois em uma área de mata e preso. A investigação passou a tratar o caso como feminicídio.
A morte de Marta causou comoção no município e chamou atenção pela violência empregada no crime. O caso também levantou novamente uma questão recorrente nas investigações de violência doméstica: nem sempre os sinais de uma relação abusiva chegam ao conhecimento das autoridades antes que a situação evolua para um desfecho fatal.
E é justamente nessa etapa anterior ao feminicídio que a informação e a denúncia de um familiar ou próprio vizinho podem fazer diferença.
Sete anos depois, Aquidauana volta a registrar um feminicídio
A última vez que Aquidauana havia registrado um feminicídio foi também em agosto. Na noite de 27 de agosto de 2019, a pastora Rose Meire Fermino de Andrade Mendonça, de 48 anos, participava de um culto no bairro Nova Aquidauana quando foi atingida por disparos feitos pelo ex-marido. Segundo informações da Polícia Militar divulgadas na época, o homem entrou na igreja durante a celebração e efetuou os disparos. Rose foi socorrida, mas morreu posteriormente. O suspeito foi localizado e preso.

O caso teve grande repercussão em Mato Grosso do Sul porque a vítima era pastora e desenvolvia trabalho religioso e social com famílias e crianças. Passados sete anos, Aquidauana volta a enfrentar a mesma estatística. Desta vez, a vítima é Marta.
O paradoxo do Agosto Lilás
A violência que matou Marta aconteceu justamente em um mês criado para ampliar a conscientização sobre os mecanismos de proteção às mulheres. O Agosto Lilás tem como objetivo informar, conscientizar e estimular o enfrentamento à violência doméstica e familiar. É também um período em que órgãos públicos, forças de segurança, entidades e movimentos sociais intensificam ações para mostrar às mulheres que existem caminhos para denunciar e buscar proteção.
Mas agosto de 2026 termina com um número que chama atenção: seis feminicídios em Mato Grosso do Sul, o maior número registrado para o mês desde o início da série histórica. O resultado de 2026 supera o recorde anterior, de cinco mortes, registrado em agosto de 2021.
Para delegada, mais informação pode dar coragem à vítima — e provocar reação do agressor
Durante uma palestra sobre o Agosto Lilás no IFMS de Aquidauana, a delegada do DAM (Delegacia de Atendimento à Mulher) da Polícia Civil de Aquidauana, Dra. Isabelle Sentinelo, chamou atenção para uma possível dinâmica que ajuda a compreender o que acontece quando as campanhas de conscientização ampliam o conhecimento das mulheres sobre seus direitos.
Segundo Isabelle, quanto mais informação chega às mulheres, maior pode ser a capacidade de reconhecer situações de violência e procurar ajuda. “Com o aumento da informação durante as campanhas do Agosto Lilás, as mulheres passam a conhecer mais os seus direitos, os mecanismos de proteção e os caminhos para denunciar. Elas ganham conhecimento e, principalmente, coragem para tomar uma atitude diante da violência.”

Na avaliação da delegada, entretanto, essa mudança de comportamento pode provocar uma reação por parte de alguns agressores. “Quando essa mulher passa a ter coragem para denunciar, para procurar ajuda ou até mesmo para deixar aquela relação, o agressor pode ficar mais agressivo porque percebe que está perdendo o controle sobre ela. E essa reação pode levar a uma escalada da violência.”
É justamente nessa escalada que, segundo Isabelle, pode estar um dos caminhos para compreender a ocorrência de crimes ainda mais graves.
“A violência vai aumentando e pode chegar ao seu ápice, que é o feminicídio. Então existe uma relação de causa e consequência que precisa ser observada: a mulher recebe mais informação, ganha coragem para denunciar, e o agressor, em determinados casos, reage de forma ainda mais violenta.”
A fala da delegada apresenta um dos grandes desafios das políticas de enfrentamento à violência contra a mulher: o momento da denúncia pode ser também um período de grande vulnerabilidade para a vítima. Isso não significa que o Agosto Lilás ou as campanhas de conscientização sejam responsáveis pelos feminicídios. Pelo contrário. A informação é uma das principais ferramentas de prevenção.
O alerta está na necessidade de que a denúncia seja acompanhada por uma resposta rápida e efetiva da rede de proteção. Quando uma mulher decide romper o silêncio, é justamente nesse momento que ela pode precisar de mais proteção.
24 feminicídios em oito meses
O caso de Marta também elevou para 24 o número de feminicídios registrados em Mato Grosso do Sul em 2026, segundo os dados divulgados pelo Monitor da Violência Contra a Mulher.
O número ainda é parcial, já que faltam quatro meses para o encerramento do ano. O número absoluto de 2026 ainda não supera os anos mais violentos da série. Mas a concentração de seis mortes em agosto acende um alerta. Em apenas um mês, o Estado registrou um quarto dos feminicídios contabilizados até então.
Mato Grosso do Sul está entre os estados com maior taxa
Quando o tamanho da população é levado em consideração, a situação também preocupa. Mato Grosso do Sul está entre os estados brasileiros com as maiores taxas de feminicídio proporcionalmente à população feminina. Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o Estado apresentou em 2025 a quarta maior taxa de feminicídios do país. O indicador é importante porque o número absoluto de mortes não permite uma comparação justa entre estados de populações muito diferentes.
Uma taxa proporcional mostra quantas mulheres são vítimas de feminicídio em relação ao tamanho da população feminina. E, nesse quesito, Mato Grosso do Sul permanece em uma posição preocupante no cenário nacional.
O feminicídio é o ponto final de uma violência que pode começar muito antes
A morte de Marta e a lembrança de Rose também recolocam em discussão uma característica comum aos feminicídios: eles raramente surgem como um acontecimento completamente isolado. Antes da violência letal podem existir ameaças, controle, ciúme excessivo, humilhações, agressões físicas, violência psicológica, perseguição e outras formas de abuso. Nem sempre, entretanto, esses sinais chegam às autoridades e é por isso que campanhas como o Agosto Lilás têm papel fundamental.
Informar uma mulher de que determinada situação configura violência pode ser o primeiro passo para que ela procure ajuda. Mas o segundo passo precisa ser igualmente forte: quando a denúncia acontece, é necessário que a rede de proteção consiga responder rapidamente.
Entre Rose e Marta, sete anos — e dois agostos
Aquidauana passou aproximadamente sete anos sem registrar um feminicídio. Esse período poderia transmitir a impressão de que o problema havia desaparecido. Não desapareceu. A violência contra a mulher continuou existindo, como continua existindo em milhares de relações no país. O que mudou, durante esse período, foi o fato de Aquidauana não ter registrado uma morte classificada como feminicídio.
A morte de Marta rompe esse intervalo.
E a coincidência de ter acontecido novamente em agosto, exatamente no mês de maior mobilização contra a violência doméstica, torna o caso ainda mais simbólico. Em 2019, Rose. Em 2026, Marta. Duas mulheres, duas histórias diferentes e sete anos entre uma morte e outra.
Agosto acaba. O alerta permanece
O último dia de agosto chega ao fim em Mato Grosso do Sul com seis feminicídios registrados em um único mês. Uma dessas mulheres era de Aquidauana. Marta tinha 40 anos. Sete anos antes, também em agosto, a cidade havia perdido a pastora Rose.
A estatística pode parecer apenas um número, mas por trás de cada registro existe uma família, uma história interrompida e uma comunidade que precisa conviver com a ausência. O desafio, agora, é fazer com que o próximo agosto seja lembrado não pelo número de mulheres assassinadas, mas pelo número de vidas que foram protegidas. Porque informar é fundamental. Denunciar é fundamental. Mas, quando uma mulher encontra coragem para romper o silêncio, ela precisa encontrar do outro lado uma rede capaz de protegê-la.
E essa talvez seja a principal lição deixada pelo agosto de 2026
FRONTEIRA
Veículo foi localizado fora da pista na região de Cabeceira do Apa; nenhum suspeito foi encontrado
EDUCAÇÃO
Provas serão aplicadas em dois domingos de novembro; mudanças na redação estão previstas apenas para 2028
Voltar ao topo