Nossa "tia" querida
De tanto abrir a "torneira" criativa, já não a fecha mais; aos 88 anos, é a mais nova membra da Academia Feminina de Letras que escreve à mão "o que der na telha"
Beirando os 90 anos, Jandira Mendes Trindade é na realidade a contadora de histórias que "brinca" de ser escritora. E de tanto deitar e rolar na cama das palavras, embolando os lençóis dos causos vividos e mostrando a "fronha" dos textos que der na telha, nossa "tia" querida acabou por se tornar a mais nova titular da AFLAMS (Academia Feminina de Letras e Artes de Mato Grosso do Sul) conforme publicou O Pantaneiro.
No sábado do dia 19, Jandira Trindade foi homenageada com assento de imortal pela Academia Feminina de Letras e Artes de MS; sua carreira literária teve início dentro das páginas do Jornal O Pantaneiro (Foto: Rodrigo Marques)O assento da cadeira 19 – número com "poderes especiais", diriam os numerólogos – só podia ser de Jandira. Se pensarmos nos algarismos 1 e 9 como início e fim, vida e morte, letra maiúscula e ponto final, o "brincar" dessa aquidauanense foi profético. Por insistência da sobrinha Maria Caroline, que também faz parte da AFLAMS, os 88 anos de vida, história e muito texto escrito à mão por Jandira foram imortalizados no coração de tanta gente, na memória pantaneira e assumindo importante papel para a cultura sul-mato-grossense.
Apaixonada por histórias, Jandira tem a sua marcada nas páginas do Jornal O Pantaneiro. O ano era 1998. "Minha amiga Sandra Leal, editora do 'Mulher 10', me convidou para participar da sua coluna. No início era quase nada, um parágrafo ali, outra notinha acolá, em que eu falava de coisas que aconteciam na cidade. Acabou que a coluna teve fim mas eu fiquei – e cá estou", diz.
Ao "brincar" com as palavras, Jandira se revela uma escritora nata: "só sei o que eu escrevo", disse ao O Pantaneiro.
Em sua casa, Jandira rascunha à mão palavras e fez delas pano pra manga: uma vida dedicada à contação de histórias.A vida dessa pantaneira é cheia de idas e vindas. De tanto ir, estudou fora e viajou, conhecendo o mundo além da janela do seu quarto. "Manaus, Fortaleza, Veneza, Paris", lista alguns destinos. De tanto ficar, criou raízes, e virou a dona do comércio mais antigo da cidade, a Casa Candia – "bibelô" do pai e herança de família. E de tanto escrever, resolveu abrir a partir dos sessenta sua "torneira" criativa, que hoje vaza talento impossível de se fechar.
"Quando mocinha, um professor que costumava frequentar nossa casa pediu para que eu escrevesse algo. Pela primeira vez na vida, relatei as lembranças que tinha à época da Casa Candia. Essas coisas simples da vida sempre me inspiraram. Desde casamentos, bailes, festas, idas às igrejas, saidinhas e lugares que já passei… enfim, traduzo com a ajuda das palavras o que vi, senti, provei e toquei, tudo aquilo guardado dentro de minha memória. Vamos ver o quanto ela há de durar", caçoa sua idade.
Ainda mocinha, Jandira conta que nem diário escrevia; precisou chegar aos 60 para se conectar com a literatura.
Jandira viajou o mundo e fez dele um "diário" prático; nesta foto, viagem na década de 70 aos canais de Veneza, Itália.Para Jandira, a homenagem que ganhou da Academia Feminina de Letras de MS deve ser compartilhada. Por mais que não casou e formou família própria, sua trajetória não foi solitária. Dos filhos de coração – os sobrinhos –, ela leva inúmeros no peito. Já na ponta do lápis ou da caneta tinteiro, não poderia deixar de assinar as irmãs caçulas no rodapé dos parágrafos da vida, além do pai Armando, um consumidor voraz de livros. Nisso, a escritora é categórica:
"O que eu sabia era que até então eu não sabia de nada, muito menos escrever. Comparada à minha irmã Doris, reconhecida educadora no antigo Mato Grosso uno, e a Aglay, que tinha uma veia poética e literária natural, achei que eu não tivesse a menor capacidade. Mas o tempo passou, fui ficando, ficando… e no fim das contas a escrita foi quem 'fincou' em mim", confirma.
Jandira não se casou ou teve filhos; não foi preciso, já que os "de coração" preencheram seu peito por toda sua vida.
Registro ao lado da grande amiga Lourdes Fragelli, já falecida, viúva de ex-governador do Estado José Fragelli.Por tanto "brincar" de ser escritora, Jandira virou uma de importância em MS. Até hoje seus textos – mesmos os escritos à mão – vão parar digitalizados no Memórias Pantaneiras e impressos nas folhas do Jornal O Pantaneiro.
Quando a sobrinha revelou que a tia foi aceita na Academia, Jandira achou que fosse gozação. "É que pela minha idade pensei que nem seria aceita". Mas é que os melhores perfumes estão nos pequenos frascos. No caso da literata, os mais longevos.
"Pela minha idade pensei que nem seria aceita na Academia", admite Jandira sobre o convite de ser "imortalizada".Palavra da vez – "E não é covid". Para Jandira, o novo coronavírus que foi parar nos noticiários, artigos científicos, na boca do povo e lotando hospitais é a prova de quanto a vida é efêmera. Nessa hora, a escritora troca os causos vividos pela poesia adquirida:
"Já vi tanta coisa passar, desde os tipos de dinheiro, pessoas de importância, prédios construídos e derrubados, sem falar da tecnologia. Quando eu imaginaria que um aparelho como o celular fosse aproximar as pessoas? Parece que o mundo encolheu na palma da mão, mas eu continuei crescendo dentro dele. As distâncias de outrora é que não se contam mais, e esse vírus invisível que tanto mata está bem pertinho da gente, às vezes até mesmo dentro de nós", reflete.
Na praia, registro de Jandira ainda pequena ao lado das irmãs; foram elas duas quem provocaram a escrita na irmã.E finaliza: "vivi gostos e desgostos, escrevi frases e formei parágrafos. Já vi de tudo e cada dia que passa parece que não vi foi nada. Não sei de tantas coisas dessa vida… só sei o que eu bem escrevo. E das palavras, nem o verbo é efêmero".
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