Ressignificado
Confira a história e o processo de adaptação de quem reter que reaprender a viver
São inúmeros os desafios que uma pessoa cega pode enfrentar em sua trajetória, sobretudo quando se trata de alguém que perdeu a visão no decorrer da vida. Mesmo assim, a vida não pode parar, é possível ressignificar esse acontecimento, é o que acredita Alexandre Ferreira, de 50 anos, que perdeu a visão aos 46 anos.
A readaptação e transformação da sua vida, foi um processo de aprendizagem. Ele conta que a dificuldade maior foi no começo, quando ficou cego, após passar por cerca de 11 cirurgias.
Segundo Alexandre, que trabalhou desde sempre no meio rural, começou a sofrer com o estresse excessivo, foi o que fez ele perder a visão, após um deslocamento de retina. Primeiro, sua vista começou a escurecer, no olho esquerdo e, após 19 dias, perdeu toda a visão do olho.

Pouco tempo depois, o mesmo aconteceu me seu olho direito, seu médico na época, disse que o deslocamento das retinas foi causado pelo estresse excessivo, sobretudo em seu ambiente de trabalho.
“Quando eu enxergava, eu não notava em mim o nervosismo, mesmo quando precisava ter pulso firme”, conta.
Alexandre relembra que, em uma das suas consultas, seu médico na época, Bruno Furlam, do Hospital São Julião, de Campo Grande, disse para ele focar no cuidado com sua saúde mental.
Com a perda, Alexandre disse que recorreu ao Instituto Sul-Mato-Grossense para Cegos (ISMAC), de Campo Grande, onde recebeu todo o suporte necessário para lidar com o acontecimento.
Ele fazendo compras“No dia 20 de fevereiro de 2019, eu cheguei no Ismac. Estava muito debilitado, muito alterado, sem chão, sem noção de nada e a única coisa que eu tinha era um cabo de vassoura na mão”, recorda.
Lá, ele foi encaminhado primeiramente para o psicólogo, “o primeiro passo é a psicologia, foi ele que me preparou para a vida e para o mundo”, conta. Ele faz questão de destacar ainda a importância que Juliana, representa no acompanhamento para sua readaptação, ela presta algumas ajudas à Alexandre.
Ainda no Ismac, ele recebeu instruções de como usar a bengala para se locomover em pisos táticos e afins, para aprender a aproveitar o máximo de seus outros sentidos, como a audição, o olfato e o tato.
Alexandre clama por melhores políticas públicas que possam atender as pessoas que são cegasO processo de readaptação também passou por uma série de instruções sobre “arrumação de casa (AVA)”, um módulo que o aluno passa a aprender a lidar com fogão, lavar roupa e outras atividades que envolvem o cuidado da casa.
O aquidauanense ainda conta que, no Instituto, ele reaprendeu a usar o celular e outras ferramentas que envolvem a informática.
“Para o cego não ficar isolado, o quarto tópico que aprendemos é a informática. Nesse tópico, aprendemos a usar o celular, eu entrei em fevereiro e em maio eu já comprei meu celular”, explica, Alexandre.
Ou seja, na prática, em menos de quatro meses ele conseguiu se readaptar e entender que, mesmo após perder a visão, Alexandre conseguiu reviver seus hábitos, a partir da cultura do cego.
Alexandre relembra que, apesar de ser uma perda irreversível, a sua readaptação fez com que ele tivesse a oportunidade de reconstruir sua vida. Ele, que não terminou a sua alfabetização, teve instrução de informática e diferentes outras áreas.
Apesar das vitoriosa e inspiradora readaptação, Alexandre salienta que sua maior necessidade e dificuldade enfrentada foi quando ele se viu diante da ausência de políticas públicas no município de Aquidauana, para dar suporte aos cegos e deficientes visuais. Ele crê que a principal necessidade das pessoas cegas, é o que ele chama de “pré” (em alusão aos estágios de alfabetização no ensino fundamental).
No “pré”, o cego reaprende a lidar com as atividades básicas em seu dia a dia.
Ele faz todas as tarefas de sua casa com autonomiaO aquidauanense conta que passou por dificuldades, “a gente recebe as costas e a exclusão”. O preconceito ainda é muito presente, segundo ele, sobretudo por falta de informação e divulgação.
Por fim, com entusiasmo, Alexandre quer que sua história seja usada como exemplo de inspiração. Ele mora sozinho e faz todas as atividades de sua casa, de forma autônoma e diz que, em Aquidauana, existem várias pessoas que são cegas e que precisam de políticas públicas para garantirem seus direitos fundamentais, bem como da valorização de suas capacidades.
“Todos nós (cegos), somos capazes, então eu digo para que quem passou por isso: não desista!”, afirma.
O cego, de 50 anos, pede que as pessoas busquem informação no Ismac e salienta a importância da participação da família nesse processo.
“Que nosso grito seja ouvido, que Aquidauana receba recursos para poder receber a pessoa cega. Esse é o meu sonho”, afirma.
“Tive um privilégio muito grande: viver duas histórias de vida com o mesmo nome. Muitas pessoas tem um nome e não conseguem construir uma história”, desabafa Alexandre.
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