X

Gabriel Novis Neves

Planejamento

Compartilhe:

A-

A+

Preparei-me para viver um século sem depender de ninguém. Herdei uma ótima genética. E ao longo da minha vida tive muito cuidado em não danificá-la.
 
Quando a expectativa de vida do brasileiro era de cinquenta anos, o meu pai, sem nenhuma preocupação em viver bastante para um possível recorde, chegou fácil aos oitenta e oito anos.
 
Casou-se aos quarenta anos. Nove filhos foram gerados, e todos nascidos em casa.
 
Minha mãe ficou órfã de mãe aos vinte e oito anos. Foi criada por parentes e viveu até aos noventa e dois anos.
 
A média de vida na minha família é de noventa anos.
 
Estou encostando aos setenta e oito anos, e acho que irei ultrapassar o meu planejamento.
 
Para quem nasceu antes dos antibióticos, vacinas, médicos especialistas, quando a tecnologia médica era o humanismo, chegar aonde cheguei é uma vitória antecipada de um campeonato ainda não terminado.
 
Embora com forças físicas e mentais em bom estado de conservação e levando uma vida modesta, estou sempre a depender de pequenas ajudas. Simples ajudas.
 
Aquele discurso que nascemos com a genética para vivermos em comunidade não é verdadeiro.
 
Sobrevivemos na solidão, mesmo não sendo portadores da lesão do núcleo afetivo - como acontece na esquizofrenia.
 
O mundo globalizado pariu a desconstrução de velhos reflexos tribais onde um vive para todos e todos por um.
 
Só quem visitou uma aldeia de índios lembra que há povos que ainda não perderam esses hábitos dos seus ancestrais.
 
O cérebro das novas gerações sofreu esse processo de desarrumação dos neurônios afetivos, criando o homem moderno sem sentimentos.
 
Viver dependente de auxiliares profissionais, que com o aumento da expectativa de vida tornaram-se cada vez mais numerosos, é uma tragédia que a maioria dos idosos enfrenta.
 
A sociedade elaborou, para o seu conforto, um protocolo pasteurizado condicionando como deve ser tratado o teimoso planejador da longevidade.
 
Até morrer é permitido, desde que em UTI, onde o infeliz passa solitário o seu último dia neste planeta.
 
Temos que nos mirar no exemplo dos animais irracionais, estes são sempre solidários e vivem em grupos.
 
Não depender de ninguém para uma longa vida só estando em bandos, onde a independência é normal.
 
Impossível executar o nosso ideal, que é viver sem ajudas.
 
 
Gabriel Novis Neves

VEJA TAMBÉM

ÚLTIMAS

Indígena Terena com raízes em Aquidauana é empossado diplomata

INÉDITO

Indígena Terena com raízes em Aquidauana é empossado diplomata

Idjahure Kadiwel está entre os primeiros indígenas a ingressar na carreira diplomática; com Essi Rafael, município passa a ter dois representantes no Itamaraty

Ação policial recupera implemento agrícola furtado de fazenda em Aquidauana

ZONA RURAL

Ação policial recupera implemento agrícola furtado de fazenda em Aquidauana

Equipamento foi levado da Fazenda Taboco na noite de domingo; caminhão suspeito de transportá-lo também foi localizado

Voltar ao topo

Logo O Pantaneiro Rodapé

Rua XV de Agosto, 339 - Bairro Alto - Aquidauana/MS

©2026 O Pantaneiro. Todos os Direitos Reservados.

Layout

Software

2
Entre em nosso grupo