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Gabriel Novis Neves

Nostalgia

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Há alguns dias, no Rio de Janeiro, voltando do teatro, onde assisti a uma peça de forte apelo especulativo existencial, fui arrebatado pela saudade do passado.
 
Ainda embalado pelo clima  de grande prazer, em que todo o sistema emocional, assim como todo corpo, recebeu  doses generosas de serotonina e de endorfina, me senti estonteado diante de uma noite cálida e estrelada.
 
Após um jantar que  aguçou todos os meus sentidos, a volta para casa, sempre beirando as praias cariocas deslumbrantes, fui tomado  por uma imensa nostalgia ao lembrar daquele lugar mágico em que eu vivi durante doze anos da minha juventude.
 
Em nada se assemelhava à cidade que pulsava dia e noite e que me fazia vibrar.
 
Figuras típicas das noites cariocas, tais como, vendedores de flores, boêmios em seus bares famosos, pequenos redutos de encontro  de artistas e poetas, boates  de fracas luzes  em que pianos discretos embalavam  casais de namorados num abraço sem fim, socialites  famosas  marcando presença  em restaurantes  da moda, enfim, tudo isso é coisa do passado.
Os altos custos dos alugueis e manutenção dos espaços de entretenimento, aliados à violência crescente nos últimos vinte anos, afugentaram os empresários da noite e ela foi se esvaindo ou migrando para áreas da periferia de mais baixo poder aquisitivo.
 
Surgiram os bailes funk, coqueluche da garotada dessas regiões.
 
Ao contrário, na zona sul, encontro ruas desertas, mesmos as principais com uns poucos carros e uns poucos corajosos que se arvoram a desafiá-las, já que a violência atingiu níveis insuportáveis.
 
Mesmo assim, assola-me um desejo abrupto de sair a esmo passeando de carro, o que há vinte anos era uma rotina.
 
Desestimulado por meus acompanhantes, todos cariocas, logo me apercebo que o mundo mudou e que a hora é de voltar para o meu casulo  onde, certamente, me sentirei mais protegido.
 
Afinal, para que servem as grandes e belas cidades  se nem mais conseguem acolher os seus visitantes e moradores?
 
Cidade como o Rio de Janeiro que, tal como Nova York, era tida como a cidade que nunca dormia, não mais dispõe  de ambientes para bebericar, ouvir um bom piano, dançar  ao som de bom cantor/a que tentava a fama, enfim, espaços em que a noite parecia não ter fim.
 
Triste constatar que tudo isso acabou e o que vemos é uma cidade fria, distante de sua população antes tão alegre e divertida e, agora, sufocada pelo medo e pela apatia. 
 
 
Gabriel Novis Neves

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