Quando o Jornal O Pantaneiro convidou-me para escrever uma coluna semanal, deixando-me à vontade para escolher sobre o que gostaria de transmitir aos leitores de Aquidauana e região, não hesitei em sugerir que pudesse me referir a pessoas e lugares que conheci ao longo de mais de vinte anos de carreira profissional como professor de História e antropólogo.
O nome da coluna (Histórias de admirar) é uma homenagem que presto aos índios Kadiwéu, que vivem no município sul-mato-grossense de Porto Murtinho e com quem convivi por oito anos, morando na maior aldeia da Reserva Indígena Kadiwéu, a aldeia Bodoquena, entre 1997 e 2004. Os Kadiwéu têm diferentes categorias de histórias para transmitir, de uma geração a outra, as narrativas sobre o seu passado. Dentre essas categorias estão as "histórias de admirar", contadas pelos mais velhos para causar espanto, admiração nos ouvintes.
Essas histórias não necessitam de uma comprovação, pois a palavra dos antigos e mais sábios da aldeia tem grande valor. Para nomear a coluna, tomei emprestada essa que eu considero uma feliz expressão e, semanalmente, contar aos leitores um pouco de minha trajetória e sobre aqueles a quem fui encontrando pelo caminho, por meio de histórias que possam, de alguma forma, causar admiração (e, por que não, espanto também!). Hoje morador do Estado do Amapá, posso afirmar com certeza que as gentes do Mato Grosso do Sul, com suas memórias e vivências, não saem do meu coração e da minha mente.
Os Kadiwéu ensinaram-me muito mais do que eu ensinei a eles em todo o tempo em que atuei como professor de Ensino Fundamental e Ensino Médio na Escola Municipal Indígena "Ejiwajegi" - Pólo. Os oito anos de convivência diária obrigaram-me a conhecer melhor a mim mesmo, para perceber nos Outros a singularidade de cada povo, aquilo que cada grupo étnico possui como próprio e irredutível.
Assim, nas próximas semanas apresentarei aos leitores de O Pantaneiro algumas das pessoas que passaram pela minha vida e deixaram lições e, mais do que isso, "histórias de admirar". Como não poderia deixar de ser, começarei pelos Kadiwéu e a extraordinária figura de Durila Bernaldino que não era Kadiwéu de origem, mas que sabia melhor do que qualquer outra pessoa costumes e tradições dos descendentes dos antigos "índios cavaleiros". Conviver com uma mulher centenária, guardiã de tantos saberes, foi um privilégio e tanto. Na próxima semana desejo dividir com os leitores tal privilégio.
Giovani José da Silva