Ele era um homem frágil na aparência, tinha um problema na perna que o obrigava a andar em uma cadeira de rodas ou de muletas, mas não me recordo de ter conhecido um ancião Kadiwéu com a vitalidade de Domingos Soares, o "Dominguinhos". Da mesma forma que Durila Bernaldino, ele foi um dos responsáveis por salvaguardar as tradições Kadiwéu, embora, como ela, não fosse um "puro" e sim um "misturado".
"Dominguinhos" nos deixou faz pouco tempo e seu nome em língua indígena jamais poderá voltar a ser pronunciado novamente, pois assim reza o costume Kadiwéu. Ele também batizava (ou "dava" nomes) a indígenas e não indígenas e algumas das pessoas que eu levei para a Reserva foram nominadas por ele.
Com "Dominguinhos", vivi uma situação no mínimo inusitada, que passo a contar para vocês leitores: eu dei aulas de História para um de seus netos e falei sobre a existência dos dinossauros na Terra, muitos anos atrás. E não é que o menino chegou em casa e todo faceiro contou para o avô o que tinha escutado na aula? Eu jamais saberia que aquela aula sobre os dinossauros renderia tanto assunto na aldeia Bodoquena, se não fosse o fato de pouco tempo depois eu descobrir que "Dominguinhos" havia sido impedido pela comunidade de contar histórias para turistas e antropólogos que visitavam os Kadiwéu, tarefa na qual se especializara e que realizava com maestria e apreço.
O motivo para tal impedimento foi o fato de que o velho indígena incorporara um estranho elemento à narrativa Kadiwéu de criação do mundo, segundo a qual quando o Criador (Aneotedogoji) fez homens e mulheres, indígenas e não indígenas, retirou a todos de um buraco, deixando os Kadiwéu por último, a quem deu valentia para guerrear contra todos os outros povos. O elemento em questão era justamente um tiranossauro, a quem o ancião decidira colocar na história, uma vez que o neto havia chegado em casa empolgado com a existência de tais criaturas, em tempos remotos.
Evidentemente que eu não poderia deixar que "Dominguinhos" fosse "punido" por ter colocado um "caco" na narrativa Kadiwéu e fui conversar com ele, a respeito do que fazer naquela situação. Ele apenas lamentou o ocorrido e disse que tinha achado "bonita" a história que eu havia contado para o neto e por isso tinha resolvido colocar o tiranossauro entre os elementos da narrativa. Rimos muito e pouco tempo depois, desfeito o equívoco, voltou a contar suas "histórias de admirar". A este homem indígena simples e de grande valor dedico toda a minha admiração, bem como a um outro sobre quem escreverei na próxima semana: Aliano José Vicente, índio Atikum!
Giovani José da Silva