Sei que prometi aos leitores um texto para esta semana sobre Aliano José Vicente, índio Atikum que vive hoje em Nioaque, em terras Terena. Peço permissão para falar dele na próxima semana e explico o motivo: a pessoa sobre quem escrevo hoje faz aniversário na véspera de Natal e tem uma importância fundamental em minha vida.
Ela nasceu de uma família de origens indígenas pelo lado materno e foi criada na fronteira entre o Brasil e o Paraguai, em Porto Murtinho, de onde saiu por volta dos 13 anos para trabalhar inicialmente como empregada doméstica em São Paulo. Assim como tantas meninas de origem paraguaia, foi tentar a sorte longe de sua terra natal, em busca de melhores condições de vida. Trabalhou muito, tornou-se costureira e casou-se com um homem simples, de nome comum "João José da Silva" e com ele teve três filhos.
Aos 29 anos ficou viúva, com os filhos ainda pequenos para criar e decidiu ficar sozinha e cuidar da família que constituíra com o grande amor de sua vida, morto precocemente aos 32 anos de idade, vítima de diabetes. Desde que conheço essa mulher, cuñā mbaretê ("mulher de coragem", em língua Guarani) não me lembro de tê-la visto desistir da vida, dos filhos e nem de deixar de proporcionar uma vida melhor àqueles que a cercavam.
É uma mulher muito bonita, de cabelos longos que com o tempo estão ficando brancos (e ela se recusa a pintá-los!). Frequentou pouco a escola, mas sabe falar três línguas diferentes (Português, Guarani e Espanhol) e com ela aprendi a retidão de caráter e o senso de justiça e dever. Estou escrevendo a vocês sobre a minha mãe, pois creio que sua história de vida é, verdadeiramente, uma "história de admirar".
Nesta semana ela completou 67 anos e eu sinto um enorme orgulho dessa mulher que não apenas conseguiu criar os filhos, como os viu tornarem-se professores ou, como ela prefere se referir a nós (eu, Giani e Rita), "educadores". Dona Gregoria, ou Kita (como é chamada pelos parentes desde a infância, vivida em parte em Assunção) não é pessoa dócil e nem dada a sorrisos fáceis. Católica fervorosa, pessoa de poucos amigos, amiga para todas as horas: eu poderia enumerar muitas outras qualidades dessa mulher, mas eu prefiro me ater àquilo que mais me chama a atenção nela.
Minha mãe foi a minha primeira professora, pois me alfabetizou para ler o mundo que me rodeava, me fez entender que sendo pobre, eu teria que me esforçar muito mais para conquistar um espaço social, por meio dos estudos. Foi bonito vê-la na plateia do Teatro Abril, acompanhando-me com os olhos e com o coração, vendo-me receber das mãos do cantor Ivan Lins o prêmio de melhor professor da escola pública do Brasil, em 2001. A ela eu devo muito mais do que "Muito obrigado!" ou "Feliz Aniversário!". Mãe, você é uma "pessoa de admirar" e é para a senhora a quem eu dedico meus esforços em ser uma pessoa cada vez melhor e consciente das minhas reponsabilidades sociais. Che rohaihu che sȳ! (Eu te amo mãe!)
Giovani José da Silva