Ele tem a pele negra, o cabelo escuro (com muitos fios brancos, é verdade!), o sotaque marcadamente nordestino e hoje vive em Nioaque, em terras dos índios Terena. Embora a aparência física remeta à ideia de que se trata de um remanescente de quilombo, Aliano José Vicente sabe que é índio e, mais do que isso, afirma com orgulho para quem estiver disposto a ouvi-lo e conhecê-lo: é índio Atikum, "caboclo da Serra do Umã". Eu o conheci em fins de 1999, enquanto realizava estudos de Especialização em Antropologia, pela UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso), em Cuiabá. O curso estava chegando ao fim e eu precisava me decidir sobre o "objeto de estudo" que serviria de referência para a elaboração da monografia. Nessa época já convivia com os Kadiwéu de Porto Murtinho e todos os meus colegas de curso, inclusive minha orientadora, a Profª. Drª. Joana Aparecida Fernandes Silva, apostavam que eu escreveria sobre os "índios cavaleiros". Como havia aprendido que a primeira tarefa de todo antropólogo é deslocar-se do que lhe é familiar, estranhando e procurando compreender o Outro, decidi ir à raiz dessa tarefa e lembrei-me das minhas incursões por terras Terena enquanto aluno de graduação em Aquidauana. Eu tivera notícias entre 1991 e 1995 que viviam alguns "terra seca" entre os índios Terena de Nioaque e ficara curioso por saber quem eram aquelas pessoas. Daí resultou o encontro com um homem de fala calma, de uma sabedoria ímpar e que me acolheu com a hospitalidade que é peculiar ao seu povo. Os Atikum, ou "caboclos da Serra do Umã" como gostam de ser chamados, vivem em Pernambuco e nas últimas décadas empreenderam uma verdadeira "diáspora", espalhando-se por diversos Estados brasileiros, inclusive Mato Grosso do Sul. Em Nioaque, Aliano e seus familiares e parentes vivem há pelo menos três décadas, aguardando com ansiedade a definição de uma porção de terras para que possam reproduzir-se física e culturalmente. "Seo" Aliano sabe esperar, ainda que hoje diga estar cansado de tantas "pelejas" para ver os Atikum viverem em uma terra que lhes seja própria. A alcunha "terra seca", apelido pejorativo que remete ao local de origem dos "caboclos" e dado pelos que o cercam, não lhe ofende: sempre me disse que o mais importante é se saber quem é e de onde veio. Com este homem e seu povo, a quem dedico respeito e admiração, aprendi muito mais do que Antropologia, pois eles jamais foram "objetos de estudo" e sim agentes de uma história bonita, e por vezes triste, que eu ajudei a por no papel e do qual sinto-me muito honrado por tê-lo feito. Em outra oportunidade contarei mais sobre "histórias de admirar" vividas em conjunto com este homem e os demais "caboclos".