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Giovani José da Silva

Histórias de admirar: Nazário Rocha

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Nosso primeiro contato não foi dos mais amistosos, mas fundamental para a parceria que estabelecemos por mais de cinco anos (2004-2009), em que eu o incomodei muitas vezes com inúmeras perguntas e curiosidades que tinha a respeito do grupo indígena Kamba, ao qual ele pertencia e era um de seus líderes. Havia recém ingressado no curso de doutorado em História da UFG (Universidade Federal de Goiás) e desejava conhecer a trajetória daqueles indígenas cujos ancestrais vinham do Oriente Boliviano e tinham sido catequizados por jesuítas.

      Eu já tinha lido algo a respeito daquele homem na dissertação de mestrado da antropóloga Yara Maria Brum Penteado, de 1980, e logo em nossa primeira conversa, ele me dissera que se eu fosse antropólogo era para dar meia volta e ir embora, pois os Kamba não queriam mais saber de antropólogos em sua aldeia, conhecida como Reduto São Francisco de Assis, localizada no Bairro Cristo Redentor, em Corumbá. O motivo: segundo Nazário Rocha (cujo nome de batismo era Nazario Surubi Rojas), a Funai havia mandado no final dos anos 1970 uma equipe à Corumbá para conhecê-los melhor e depois não tiveram retorno do que havia sido feito com fotografias e questionários produzidos por antropólogos e linguistas.

Assim, fiquei sabendo que seria melhor me apresentar como outro profissional, quem sabe um contador de histórias. Foi o que fiz. Aquele homem, na época com quase 70 anos de idade, abriu um largo sorriso e me disse que os Kamba (que se autodenominam Camba-Chiquitano) desejavam ter contato com alguém que soubesse ouvir e contar histórias e estava disposto a falar comigo. Juntos, vivemos uma experiência que foi muito além do que simplesmente a de pesquisador-pesquisado. Nazário abriu seu coração e sua memória para me contar como se deu a migração dos primeiros Kamba para Corumbá, ainda na década de 1950, da importância da estrada de ferro Santa Cruz de la Sierra-Corumbá em suas vidas e das dificuldades de se fazer ver e reconhecer como "índio no Brasil".

Os Kamba são vistos até hoje como "índios estrangeiros" na fronteira Brasil-Bolívia e isso sempre incomodou ao velho indígena. Toda essa história transformou-se em uma tese de doutorado, defendida em 2009, considerada a melhor na área de Ciências Humanas da UFG (Prêmio Expressão Acadêmica 2011) e transformada em livro (Identidades cambiantes: os Kamba na fronteira Brasil-Bolívia, Editora UFG, 2012). Até hoje não sei o motivo, mas o senhor Nazário me chama de "mestre", em uma atitude de respeito e consideração. Na verdade, ele foi e é o meu mestre, aquele que melhor sabia e me mostrou como alguém vive em fronteiras, tanto físicas como simbólicas, habitando, ao mesmo tempo, entre dois ou mais mundos.


Giovani José da Silva

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