Ela voltou esta semana à televisão, quinze anos depois de ter estreado em Malhação, para viver uma personagem bem diferente daquela que mostrou ao Brasil quando adolescente no mesmo folhetim. Eu tive o privilégio de conhecê-la e conviver ao seu lado em 2005 e desde então posso dizer que somos mais que amigos, somos "parentes", primos por termos sido "batizados" por Durila Kadiwéu, a anciã sobre quem já escrevi para esta coluna.
Seu nome em língua indígena é Nawilexe (pronuncia-se "Nauilêtche") e é mais conhecida pelo grande público pelo nome artístico Priscila Fantin. Juntos, demos vida à personagem Serena, da novela "Alma Gêmea" (2005-2006), exibida pela Rede Globo de Televisão no horário das 18 horas (sendo uma das novelas mais vistas de todos os tempos no horário). Eu fui designado para prepará-la a viver como uma mestiça, filha de um homem branco e de uma indígena (personagens vividas pelos atores Marcos Suchara e Luciana Rigueira).
Nosso primeiro encontro no Projac foi marcado pelo encantamento de estarmos envolvidos em um mesmo projeto artístico que mostraria ao país uma visão diferente das culturas indígenas, especialmente do Pantanal Sul-mato-grossense, onde se passava parte da história de "Alma Gêmea". Convivemos intensamente por meses, treinando comportamentos, gestos, falas, olhares, para que Priscila, "a prima" (como eu a chamo até hoje) incorporasse à personagem um jeito distinto de ser a "mocinha" da novela: uma guerreira de atitudes nobres e dona de seu próprio destino.
Gravamos em Bonito e em outros lugares do Brasil, além do Projac, e quando estivemos em Mato Grosso do Sul eu aproveitei para levá-la à Bodoquena e dali fomos para a aldeia Bodoquena, em Porto Murtinho, para que conhecesse os Kadiwéu. Foi nessa ocasião que a memé Durila a "batizou" como Nawilexe, que significa "coroada por gente, por pessoas que a cercam e a admiram".
Aqueles dias de gravação, sob o comando do diretor Jorge Fernando e sua equipe, foram inesquecíveis para mim. Também não me esqueço de quando chegamos à casa da minha mãe para tomarmos um café: eu, Priscila e os atores Francisco Carvalho (que vivia o Nijienigi, o pajé) e André Gonçalves (o José Aristides). Quanta emoção para Dona Gregoria! Priscila é uma pessoa simples, muito humilde e encanta a todos não apenas pela beleza, mas pelo carinho com que trata as pessoas a sua volta. Ajudá-la a "dar alma" à Serena, acompanhando-a dia e noite nas gravações, corrigindo-a e incentivando-a foi uma experiência incrível, uma verdadeira "história de admirar".
Pelo ser humano que é, não apenas pela atriz famosa e talentosa, eu dedico a ela minha admiração e guardo na memória com carinho de primo e amigo os dias, meses (quase um ano!) em que estivemos juntos dando vida a personagens em uma aldeia indígena localizada ficticiamente no Pantanal do Sul de Mato Grosso (hoje Mato Grosso do Sul), trabalho realizado com muito empenho e disciplina. Elee -niotagodo Nawilexe! (Muito obrigado, em língua Kadiwéu)
Giovani José da Silva