Ele foi um dos primeiros indígenas da etnia Terena que conheci quando cheguei a Mato Grosso do Sul, em 1991, e carrego sua imagem e voz calma em minhas lembranças como uma benção pelo privilégio de ter conhecido e convivido com um legítimo koixomuneti. É assim que os Terena chamam/ chamavam seus "pajés" ou "curandeiros" e Daniel Vicente foi um dos melhores que conheci.
Nosso primeiro encontro se deu por ocasião do Projeto de Alfabetização Terena, coordenado na época pelo professor Gilson Rodolfo Martins (UFMS), que viria a ser meu orientador de mestrado, anos mais tarde, em Dourados. Na época, percorri todas as aldeias Terena da região de Aquidauana (Anastácio, Aquidauana, Dois Irmãos do Buriti, Miranda, Nioaque, Rochedo e Sidrolândia), convidando professores e lideranças a participarem do Projeto.
O Senhor Daniel vivia, então, com a família em Nioaque, na aldeia Brejão e realizava seus "trabalhos" em uma pequena casa localizada em seu quintal, onde tantas vezes eu estive, entrevistando-o, além de ajudá-lo nas tarefas de atender aos que o procuravam. E não eram poucos...
Pessoas vinham de perto e de longe procurar alívio para dores e enfermidades e sempre encontravam palavras de consolo, além de "beberagens", "garrafadas", "emplastros" preparados por Dona Mamédia, a esposa do Senhor Daniel. O koixomuneti as benzia com um penacho feito de penas de ema e um chocalho (maracá), proferindo palavras que evocavam o bem-estar da pessoa. Muitas vezes eu fui solicitado a ajudar o velho "pajé", carregando pessoas para dentro/ fora da pequena casa de benção, servindo água ou alguma "beberagem", tentando acalmar alguém mais exaltado.
O velho Terena me impressionava com suas histórias e uma delas eu reproduzo esta semana a vocês, caros leitores, em que se comemora o Dia do Índio: certa vez, o Senhor Daniel me disse que a cidade de Nioaque não "ia pra frente" porque havia um "enterro" da época da Guerra do Paraguai (1864-1870) que precisava ser descoberto. Eu perguntava onde estaria localizado tal "enterro" e tudo o que ouvia como resposta é que não havia chegado a hora de revelar o local e nem do que se tratava. Esqueci-me dessa história por muito tempo, até que um dia fui comunicado da morte do koixomuneti e procurei a família, em Nioaque, para expressar os meus sentimentos pela partida de um bom amigo e um grande homem.
Fui informado pela filha, a professora Maurícia Vicente, que pouco antes de morrer, o Senhor Daniel, após uma visão, havia desenterrado de uma das margens do rio Nioaque uma espada antiga, provavelmente do século XIX, e que informara a todos que dali em diante a cidade poderia prosperar e seus habitantes, índios e não índios, viveriam melhor e em paz. Oxalá que suas palavras se cumpram!
Giovani José da Silva