Esta semana não vou contar a vocês uma "história de admirar" a respeito de uma única pessoa, mas de um grupo de pessoas com quem convivi em Aquidauana, que me marcou de um jeito muito especial e com quem encenei algumas peças de teatro no início dos anos 1990. O grupo teatral chamava-se Seiva e a estreia do mesmo em palcos aquidauanenses se deu em 1º de março de 1993, no Salão Nobre "Professora Dóris Mendes Trindade", antigo CEUA, atual CPAQ, da UFMS.
Com texto e direção de Giovani José (meu nome artístico na época!), a programação de "Retalhos de um Brasil" (uma série de esquetes entrecortados por poesias e embalados por músicas) incluía canções tais como "Mira Ira" (cantada por Lula Barbosa, Miriam Mirah e Grupos Tarancón e Placa Luminosa) e "Redescobrir", de autoria de Gonzaguinha e interpretada por Elis Regina. O cenário? Um imenso aparelho de televisão feito de papelão e outros materiais, ladeado por objetos gigantes que representavam um creme dental e um maço de cigarros, dentre outros, com um imenso "Cristo" ao fundo, coberto por plástico preto e com a inscrição "Mesmo proibido, olhai por nós!".
Ainda vivíamos o impacto do Carnaval da Beija-Flor de 1989, comandado pelo inesquecível Joãozinho Trinta ("Ratos e urubus, larguem minha fantasia"). No palco, um grupo de alunos do CEUA de vários cursos, além de jovens estudantes do Ensino Médio (então 2º Grau) das escolas de Aquidauana e Anastácio, entrando e saindo pelo aparelho de TV, satirizava a televisão, os políticos falastrões, além de tocar em assuntos delicados na região, tais como a temática indígena ou os efeitos do Golpe Militar de 1964.
Havia também espaço para a brincadeira e a alegria, além da crítica social às mazelas que sofria o nosso país. Uma cena inesquecível? Dançar "No tabuleiro da baiana" com minha amiga e colega do curso de História Rosana do Rosário César, dublando as vozes de Caetano Veloso e Gal Costa na famosa canção de Ary Barroso. Encenamos a peça por diversas vezes ao longo de 1993, sempre com entrada franca, em escolas e ginásios esportivos de Aquidauana e Anastácio, além de nos apresentarmos na quadra poliesportiva do antigo CERA, em uma noite salpicada de estrelas.
No prospecto que anunciava o programa teatral (cujo exemplar nº 125 foi conservado por mim com muito carinho até hoje) a peça era dedicada "[...] à memória de um certo país sem memória chamado BRASIL...". "Retalhos de um Brasil" me uniu a pessoas e me conectou a tantas outras de uma forma especialmente bela. Entre canções como "Procissão" (de Gilberto Gil, cantada pelos próprios integrantes do grupo Seiva) e "Máscara negra", na voz de Dalva de Oliveira, revelamos a nós mesmos, naquela época jovens cheios de sonhos e de vontade de mudanças, e aos que foram nos assistir o que o Brasil tinha de pior e de melhor.
Giovani José da Silva