Eu lembro pouco dele, é verdade, mas sei e sinto que ele foi (e é/ será) fundamental em minha vida. Estou me referindo ao meu pai, João José da Silva, que deixou a mim e as minhas irmãs órfãos em um hoje, longínquo, 25 de março de 1976. Eu estava prestes a completar quatro anos de idade, mas me lembro do timbre de sua voz, do seu cheiro (especialmente da colônia de pós barbear que usava) e da maneira como cuidava especialmente de mim, seu único filho homem.
Meu pai era um homem de modos simples, de poucos estudos formais, mas de grande força de vontade e não media esforços para oferecer o melhor para seus filhos e esposa. Como muitos brasileiros, este brasileiro era um apaixonado por futebol e pelo Sport Club Corinthians Paulista, o time do coração. Nascido no interior do Estado de São Paulo, em Sertãozinho, conheceu minha mãe na juventude e juntos permaneceram por pelo menos catorze anos, entre o namoro, o noivado e o casamento.
O diabetes, além dos problemas decorrentes da doença, nos tirou meu pai do convívio familiar precocemente: tinha apenas 32 anos de idade quando faleceu em São Paulo, capital. Aqueles que o conheceram em vida dizem que sou muito parecido com ele, não apenas fisicamente, mas no jeito de falar e de me comportar. Às vezes me pego imaginando como teria sido minha vida se ele estivesse aqui, vivo, com mais de 70 anos de idade (ele nascera em 29 de março de 1943, embora fosse registrado na certidão de nascimento em 02 de abril).
Não sei se um broquista - responsável pelo corte de cortiças em uma grande fábrica paulistana - e um coletor de papelão nas ruas teria a sensibilidade de compreender que eu queria estudar os índios, conviver com eles, compreendê-los. Enfim, talvez meu pai desejasse que eu seguisse outra carreira, mas o fato é que esses anos todos sem ele fisicamente ao meu lado me fizeram amadurecer mais rápido do que os outros rapazes da minha idade. Apesar disso, quando estou fazendo a barba ou penteando os cabelos diante de um espelho, me recordo com carinho do rosto dele, de sua voz e de seu jeito de ser. Certa vez, meu sobrinho João Pedro me disse que sabia por que eu tanto falava de meu pai para ele e para outras pessoas. "É porque as pessoas só morrem de verdade quando nos esquecemos delas, não é tio?". Tive que concordar com aquele menino que carrega em seu primeiro nome o nome do avô, meu pai.
Eu também de certa forma carrego o nome dele, pois "Giovani" em italiano é "João". Penso que eu carrego mais coisas do meu "velho" em mim. Dentre elas, o desejo de fazer o melhor que posso pelas pessoas que me rodeiam e a paixão pelo Corinthians. "Ninguém é perfeito", diria meu mestre e segundo pai, o palmeirense Arnaldo Begossi!
Giovani José da Silva