Embora eu tenha ficado órfão de pai desde muito cedo, tive a oportunidade de contar com pessoas que serviram a mim como importantes referências masculinas desde criança, já que eu vivia rodeado por mulheres (minha mãe e irmãs, além de tias e primas). Uma dessas figuras foi o senhor Marino Mathias, ou simplesmente o "Vô somário". Não me recordo quem primeiro o chamou assim, mas somente depois de muitos anos é que eu fui descobrir que ele sequer se chamava Mário!
Não importa, pois as lembranças que guardo daquele homem negro e longilíneo são as melhores possíveis. A minha mãe, Gregoria, quando deixou Mato Grosso do Sul na infância, foi morar em São Paulo, capital, e alguns anos mais tarde, em uma fábrica, conheceu uma das filhas do "Vô": Olga (eles eram três homens e três mulheres, incluindo a colega de trabalho de minha mãe). Certa vez, Olga comentou com minha mãe que o pai era benzedor e perguntou a ela se acreditava em rezas e "benzimentos". Dona Gregoria sempre foi muito católica, mas não negou a ajuda oferecida e levou minha irmã mais velha para ser "benzida".
Dali em diante, de preferência às sextas-feiras (o melhor dia para "benzimentos", como dizia o "Vô"), nós íamos - eu, Giani, Rita e o primo Vagner - sempre à casa daquele senhor, que apesar da idade avançada (ele nascera em 22 de maio de 1903, em Piracicaba, interior de São Paulo), sempre nos recebia com um sorriso largo no rosto. Eu reparava, em minha ingenuidade de criança, como era possível que alguém com tanta idade não tivesse um fio de cabelo branco na cabeça! O "Vô" era muito vaidoso e gostava de pintar os cabelos... Outro gosto dele que não me sai da memória era tomar "ki-suco" (era assim que chamávamos os sucos em pó). Minha mãe não tolerava isso dentro de casa, mas quando íamos "benzer" na casa do "Vô" não tinha remédio: ele pedia com jeito e ela mesma preparava o refresco para todos nós.
Por que escolhi falar de coisas tão triviais como uma "história de admirar" nesta semana? Talvez porque o senhor Marino Mathias tenha deixado em mim muito mais do que suas rezas e bendições, além de ensinamentos: eu admirava aquele homem que ficara viúvo e criara seus filhos com tanta dignidade e trabalho, além de cuidar dos filhos de outras pessoas, ensinando a curar a "nervosa" (era assim que ele se referia aos achaques das crianças levadas por seus pais até ele).
Nunca o vi reclamar de nada, a não ser em nosso último encontro, pouco antes de ele falecer, em 05 de fevereiro de 1995. Já debilitado pelo câncer, aquele homem que tinha vivido quase um século estava triste e sofria muito com a doença. Em determinado momento, porém, quando ficamos a sós em seu humilde quarto, vi pela última vez um luminoso sorriso em seu rosto. Foi quando ele me disse que estava ajeitando as coisas para uma viagem que ia fazer dali a alguns dias, mas que eu não me preocupasse, pois ele confiava que tudo ficaria bem após a sua partida.
Com lágrimas nos olhos, agradeci a ele por tudo o que fizera por mim e pela minha família, ao que ele respondeu que era ele quem me agradecia pela convivência e por chamá-lo de "Vô", mesmo depois de adulto! Ao senhor Marino Mathias, o meu "Vô somário", o respeito de um "neto postiço" que se sente abençoado apenas pelo privilégio de tê-lo conhecido e convivido com alguém tão admirável...
Giovani José da Silva