Encerrei o último texto escrito para esta coluna mencionando que em 2001 fui escolhido como o melhor professor da escola pública do Brasil. Na ocasião, recebi o Prêmio Victor Civita, que na época era chamado de Professor Nota 10 e atualmente recebe o nome de Educador Nota 10. Não apenas parte do nome do prêmio mudou, mas também o seu formato, ao longo dos anos. O prêmio existe desde 1998 e na edição em que fui contemplado, a quarta, havia 12 finalistas de diferentes estados da Federação (Mato Grosso do Sul, Rondônia, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Bahia, Goiás e Santa Catarina), além do Distrito Federal.
A Fundação Victor Civita, pertencente ao Grupo Abril, reconhecia/ reconhece o trabalho de professores brasileiros, por meio de uma quantia em dinheiro e um troféu. Este eu guardo com carinho em minha casa, ao lado da fotografia que tirei com o meu "padrinho" e a mestra de cerimônias daquela mágica noite de 09 de outubro: a atriz Regina Duarte, comemorando naquele ano 40 anos de carreira artística. Cada um de nós, vencedores (além de mim, Lininalva, Letícia e Vilma), teve um "padrinho"/ uma "madrinha", quem fazia a entrega do prêmio. Tive a honra de receber o troféu das mãos do cantor Ivan Lins, que anunciou meu nome e o município que eu representava: Porto Murtinho, a terra onde minha mãe crescera e onde meus bisavós, que a criaram como filha, estão enterrados.
O projeto pedagógico intitulava-se "Como os Kadiwéu viviam antigamente" e baseava-se na ideia de ensinar aos meus alunos indígenas de 5ª. e 6ª. séries do Ensino Fundamental da Escola Municipal Indígena Ejiwajegi - Pólo, como a história era escrita. Eu apresentara aos alunos os registros deixados por outros viajantes que haviam estado na Reserva Indígena Kadiwéu antes de mim (como, por exemplo, Darcy Ribeiro, entre 1947 e 1948). Os registros escritos/ fotográficos/ iconográficos despertaram nos alunos a curiosidade para saber como havia sido possível aos ecalailegi (não índios em Kadiwéu, lê-se "ecaláileguí") saber tantas coisas sobre os Ejiwajegi (forma como os Kadiwéu se autodenominam, lê-se "edjiúadjêguí"). Contei a eles sobre os saberes e fazeres de antropólogos e de historiadores, explicando que as informações eram obtidas por meio de entrevistas e da convivência com os mais velhos, os guardiães da tradição Kadiwéu.
Meus alunos então, desejosos por se tornarem "antropólogos de si mesmos" selecionaram entrevistados entre seus pais, avós e bisavós e conversaram sobre seis temas recorrentes entre os índios: Guerras; Luto; Moradia; Vestuário; Brinquedos; Alimentação. Ao comparar as narrativas apresentadas durante as aulas de História foram percebendo que as histórias individuais faziam parte de uma grande história coletiva e que houve permanências e rupturas no modo de ser Kadiwéu, que mudaram para continuarem sendo eles mesmos e mantiveram-se os mesmos para se abrirem às mudanças impostas pelo contato. Quando me recordo dessa experiência, lembro-me com gratidão e honra que foram os meus alunos indígenas quem me tornaram o melhor professor da escola pública brasileira. A eles o meu eterno e sincero "-niotagode" (agradecimento)!
Giovani José da Silva