Em poucos dias, ele, que é nascido no interior paulista, completará 79 anos de idade! Quase oito décadas vividas e este santa-rosense (de Santa Rosa de Viterbo, SP) continua trabalhando incansavelmente, revelando aos brasileiros um país de proporções continentais e suas gentes tão diferentes entre si, além de belas e escondidas paisagens. Estou me referindo ao jornalista José Hamilton Ribeiro, que tive o privilégio de conhecer no Carnaval de 2012, quando gravei junto com ele e sua equipe, às margens do rio Paraguai, em Porto Murtinho, uma longa entrevista em que falei sobre a presença indígena no Pantanal, em especial os que mantiveram com o rio uma intensa relação de sobrevivência e interdependência ao longo dos tempos.
Eu sempre admirei José Hamilton, ou Zé Hamilton, como gosta de ser chamado, especialmente depois que li, ainda menino, o livro infanto-juvenil A vingança do índio cavaleiro, lançado no início dos anos 1980. A obra conta a trajetória de um jovem índio Kadiwéu, adotado por um casal de não índios, em que o autor apresenta aspectos da vida dos descendentes dos antigos Mbayá-Guaikuru, reconhecidos pelo poderio guerreiro de seus homens e pela arte em cerâmica e em pinturas faciais e corporais de suas mulheres.
Em comum, portanto, além do gosto pela aventura, desfrutamos da amizade dos Kadiwéu e a admiração pelas histórias e culturas indígenas localizadas hoje em Mato Grosso do Sul. Poder conversar frente a frente com Zé Hamilton e conviver ao seu lado por alguns dias foi uma experiência rica e de aprendizagem ímpar. Correspondente da Guerra do Vietnã (1955-1975) para a revista Realidade, o jornalista perdeu uma das pernas ao pisar em uma mina terrestre, em 1968. Entretanto, quem o vê andando de um lado a outro, parecendo incansável, sempre curioso e atento a tudo o que se passa ao seu redor, não imagina que ele tenha qualquer problema de locomoção motora.
Zé Hamilton mostrou-se muito receptivo naqueles dias de prosa às margens do rio Paraguai e eu o presenteei com o primeiro volume da obra Kadiwéu: Senhoras da Arte, Senhores da Guerra (Editora CRV, Curitiba, 2011), organizada por mim e ilustrada por Arnaldo Begossi (que fez a belíssima capa). Eu aproveitei a visita à cidade onde minha mãe crescera para visitar parentes, amigos e ex-alunos, além de visitar os túmulos de parentes enterrados no cemitério local, tantas vezes inundado pelas águas do rio. O Paraguai abrigou em suas margens, durante séculos, inúmeras populações indígenas e hoje se constitui, em diversos pontos, na fronteira do Brasil com o Paraguai e a Bolívia. A série para a qual gravei a entrevista, inclusive, está sendo exibida nas duas últimas semanas e nas próximas devo aparecer ao lado de Zé Hamilton, no programa Globo Rural, que vai ao ar nas manhãs de domingo pela Rede Globo de Televisão.
A este jornalista quase octogenário, além dos parabéns, quero dedicar o texto dessa semana na coluna, agradecendo a ele por honrar a profissão e nos oferecer tantas histórias de admirar.
Giovani José da Silva