Ela nos deixou em 14 de outubro último, após ter completado 85 anos de vida, uma boa parte vivida em Jardim, Mato Grosso do Sul. Ele já havia deixado muitas saudades em todos aqueles que o conheceram, quando partiu em 10 de junho de 2012. Estava preparando o texto dessa semana, antes de embarcar para São Paulo a fim de participar da entrega do Prêmio Victor Civita, quando me deparei com a notícia da partida de minha tia-avó Geronima Torres Monfort.
Quinta filha de uma família de 14 irmãos (Martina, Julia, Facunda, Antonia, Geronima, Eusebio, Cristina, Faustina, Calixta, Carlos, Irene, Celestina, Justina e Celso), filha do argentino Eusebio Torres e da paraguaia Evangelista Florentín, tia Geronima, ou Quelô, como a chamávamos, nasceu em uma segunda-feira, dia 30 de setembro às 15 horas. Tenho essas informações cuidadosamente registradas a lápis por meu bisavô em uma caderneta datada do ano de 1947. Trata-se de um documento histórico sobre o qual ainda escreverei para esta coluna e que contém registros importantes do cotidiano da minha família materna, na primeira metade do século XX.
Ainda segundo a caderneta, o registro original de nascimento de tia Geronima encontra-se em Puerto Pinasco, Departamento Presidente Hayes, no Paraguai. Meu tio-avô, Emygdio, a quem todos chamavam pelo sobrenome, Monfort, era de Porto Murtinho, nascido em 15 de julho de 1927, e casou-se com a tia nos anos 1950, em Corumbá. Juntos, viveram por mais de 60 anos em matrimônio e tiveram cinco filhos: Getúlio, Graciela, João, Alfredo e Adriana. As melhores lembranças que tenho dos dois referem-se às minhas idas e vindas da aldeia dos Kadiwéu, quando saía da sede do município de Porto Murtinho e passava por Jardim para pedir a benção aos meus tios e prosear um pouco.
Muitos me diziam ser o meu tio-avô uma pessoa brava e de pouca conversa, mas não me recordo de uma única vez que ele tenha sido deselegante comigo, pois sempre que os visitava me recebia com um sorriso no rosto e um abraço fraterno. A tia, como toda mulher de origem paraguaia, fazia uma comida deliciosa, incluídas aí a famosa "sopa paraguaia" e a "chipa". Antes de vir para o Amapá fui visitá-la em sua casa em Jardim e foi a última vez que nos falamos. A derradeira vez que vi o tio Emygdio (era assim que eu o chamava e isso o agradava bastante) foi no velório de outra tia-avó, Irene, falecida em dezembro de 2008, em Campo Grande. Naquela ocasião, o tio me pediu que eu o visitasse mais vezes, pois sentia a minha falta e, mais do que isso, estava aborrecido por nos encontramos apenas em funerais.
Não consegui vê-lo novamente depois disso, infelizmente. Entretanto, guardo em minha memória e em meu coração as tardes que passei brincando no balanço que havia no quintal da casa de tio Emygdio e de tia Geronima, e que mesmo depois de adulto pedia para me sentar ali, enquanto conversávamos. Ambos tornaram os meus dias (às vezes bastante cansativos, de viagens entre aldeias, estradas de terra e pequenas cidades do interior de Mato Grosso do Sul) mais alegres e leves. A benção, tia! A benção, tio!
Giovani José da Silva