Uma fotografia, datada de 1987 e postada em rede social esta semana, despertou em mim lembranças sobre as quais desejava escrever há algum tempo. Nela, aparecem jovens entre 15 e 17 anos, aprendizes da Escola Senai "Hermenegildo Campos de Almeida", localizada em Guarulhos, São Paulo, naquele ano formandos dos cursos de Reparador de Circuitos Eletrônicos (RCE) e de Reparador de Equipamentos Eletrônicos Industriais (REEI). Isso mesmo: antes de me aventurar pela História e pela Antropologia e me tornar professor de índios, eu estudei... Eletrônica!
Não era nenhuma "vocação" e tampouco eu tinha (verdadeiro) talento para consertar televisores e aparelhos eletrônicos em geral, mas aquela fora a saída encontrada por minha mãe, quando eu ainda tinha 13 anos, para que, segundo ela, "o menino não ficasse nas ruas, aprendendo o que não deve". Lá fui eu, então, estudar todos os dias, de segunda a sexta-feira, carregando marmita e obedecendo a uma rígida disciplina, em meio a matérias escolares, tais como Matemática e Ciências, além de aulas em laboratórios. Sequer tínhamos acesso a computadores naquele final dos anos 80, mas nossa curiosidade era aguçada pelos professores Valbão, Bira, Messias, Pedro, dentre outros.
Passávamos o dia todo no Senai (manhã e tarde) e lembro-me que, naquela época, ao contrário dos dias de hoje, era uma escola apenas para rapazes. Da minha turma, composta inicialmente por 30 alunos, recordo-me de alguns dos nomes daqueles que se tornaram bons amigos/ colegas: Márcio Catão, Judevan Ferreira, Clodoaldo Santos, Claudio Amaro, Edilson Braz, Rogério Matos (o responsável por publicar a foto e desencadear as lembranças que deram origem a este artigo), Luciano Oliveira, Paulo Sérgio, Eduardo Pedro, Giancarlos, James. Outros tantos se perderam na poeira da memória, de um tempo em que ouvíamos, nos aparelhos de rádio que nos dedicávamos a (tentar) consertar, hits de Whitney Houston ("The greatest love of all") ou Gregory Abbott ("Shake you down").
Como esquecer que éramos um bando de "moleques" que além de estudar muito, jogava "CEPEBOL" (uma espécie de tênis sem raquetes!) nos intervalos das aulas, e tremia de medo do "Seo" Sávio (nosso coordenador, in memoriam) e do "Seo" Natalino (diretor da escola), além das assistentes sociais Maria Helena (in memoriam) e Nanci. Voltarei ao tema da Escola Senai nesta coluna, contando um pouco mais sobre o cotidiano daqueles rapazes da foto e de como a aprendizagem industrial marcou para sempre nossas vidas! Por ora, afirmo que o jovem que aparece no centro da imagem, com o rosto voltado para o lado e certa expressão de tristeza, não imaginaria estar, 27 anos depois, morando em Macapá, ministrando aulas no Ensino Superior e viajando no tempo, um tempo em que pensávamos ser tão jovens, como dizia a letra da música da banda Legião Urbana... "Então me abraça forte e diz mais uma vez que já estamos distantes de tudo/ Temos nosso próprio tempo".
Giovani José da Silva