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Giovani José da Silva

Histórias de Admirar: Oiapoque

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      Depois de passar os últimos dias no extremo Norte do Brasil e às vésperas de viajar (de férias!) para Mato Grosso do Sul e rever amigos e parentes, índios e não índios, em Aquidauana, Bodoquena, Campo Grande, Corumbá, Jardim, Nioaque e Ponta Porã, escrevo sobre o Oiapoque. Sempre que ouvia a expressão "do Oiapoque ao Chuí", pensando na imensidão que é o Brasil, não poderia imaginar que um dia estaria num desses extremos, muito menos trabalhando e convivendo com suas gentes.
 
A Unifap (Universidade Federal do Amapá), instituição em que leciono, mantém uma Licenciatura Intercultural Indígena no município desde meados dos anos 2000 e foi nesse curso que eu atuei como docente em 2013 e 2014, além de ser atualmente orientador de TCC (Trabalhos de Conclusão de Curso) de acadêmicos das etnias Galibi Ka'linã, Galibi Marworno, Karipuna, Palikur e Wajãpi. Apenas os últimos não vivem atualmente em Oiapoque, não fazendo parte, portanto, do chamado complexo dos "Povos do Uaçá". O Uaçá é um rio que corta a região, banhando as terras indígenas e alimentando pessoas, mitos e histórias. Além dele há os rios Curupi e Oiapoque, este fazendo a fronteira entre o Brasil e a França (Guyane, chamada por nós de Guiana Francesa).
 
A palavra Oiapoque deriva do Tupi e significa "casa dos Wajãpi", moradores em tempos remotos do local, quando fazia parte da Capitania ou Terras do Cabo Norte. Atravessando o rio fronteiriço, encontra-se Saint-Georges-de-l'Oyapock, pequeno vilarejo francês, com pouco mais de 2.000 habitantes e vinhos (de boa qualidade e baratos) vendidos em Euro. Do lado brasileiro da fronteira, em Oiapoque, encontram-se cerca de 23.000 habitantes, que vivem basicamente dos recursos advindos da pesca e do funcionalismo público. Para se chegar à sede do município, uma verdadeira aventura espera pelos desbravadores: são 560 quilômetros entre Macapá e Oiapoque, 160 dos quais ainda de terra esburacada e muita lama, em época de chuvas (que vai de janeiro a junho, aproximadamente).
 
Nesta última viagem, tivemos que descer do ônibus (não há transporte aéreo regular até a cidade) e caminhar, de madrugada, enquanto o mesmo era empurrado para sair de um atoleiro. Chegar ao Oiapoque (segundo um monumento localizado no final da principal rua da cidade e em frente ao rio, o lugar onde "começa o Brasil"), permanecer por dias em meio à floresta amazônica, conhecer o Museu dos Povos Indígenas (Kuahí, no momento de portas fechadas para uma reforma), conversar com índios, negros, mestiços, franceses e outros estrangeiros, além de experimentar a culinária local, podem render muitas e ótimas "histórias de admirar". Só não se pode esquecer do uso de repelente e da proteção contra mosquitos, de forma geral, pois o município, nos últimos meses, mostrou-se porta de entrada da febre chicungunha no Brasil, via Guyane e ilhas francesas do Caribe, tais como Guadalupe e Martinica.
 
 
Giovani José da Silva

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