"E o menino com o brilho do sol na menina dos olhos/ Sorri e estende a mão entregando o seu coração/ E eu entrego o meu coração." A música de Gonzaguinha me veio à lembrança assim que o ônibus se aproximou de Anastácio, pela rodovia, trazendo-me de volta à Aquidauana para um (curto) período de férias nesta semana. Andando pelas ruas da cidade nos últimos dias, viajei no tempo e fui me reencontrar em 1995, há exatos 20 anos, quando deixei a cidade depois de ter concluído a Licenciatura Plena em História no então CEUA. Eu tinha apenas 22 anos de idade, muitas ideias na cabeça e pouco (bem pouco) dinheiro nos bolsos. Voltar a estar aqui depois de duas décadas e procurar nos rostos dos que passam por mim nas ruas alguém conhecido, bem como tentar encontrar lugares antes facilmente reconhecíveis (onde está o Hotel Fluminense, mesmo?) são tarefas que me trazem certa angústia e um tanto de nostalgia. Saudades dos tempos de tomar sorvete sentado num dos bancos na antiga praça central, em frente ao Supermercado Catarinense (?); de morar na pensão da Dona Quitéria, logo ali perto da praça; de passar pela casa dos Alves Corrêa e ficar imaginando quem moraria naquele "castelo"; de caminhar a pé até a Cohab Ovídio Costa, visitar parentes! Enfim, saudades de uma Aquidauana que se já não existe mais fisicamente, existe ao menos em minhas lembranças mais queridas, de um tempo em que eu, tão jovem, não parecia sentir medo de nada e nem de ninguém. Os anos se passaram e muita coisa mudou na cidade: impressões e marcas de outros tempos foram apagadas, dando lugar ao novo, nem sempre melhor ou mais bonito do que o antigo. Muita coisa mudou em mim também, pois eu conheci o "Portal do Pantanal" ainda muito menino, no final dos anos 1970, quando tudo parecia muito maior do que é hoje. Aquela Aquidauana de minha tenra infância, então, de quando eu passava pela cidade de trem, rumo a Corumbá, para passar férias na casa de meus tios-avôs, parece ter se perdido para sempre em algum canto das minhas memórias! Lembro-me vagamente da parada na estação da NOB, de imensos picolés coloridos que eram vendidos ali e de como nós, crianças, ficávamos fascinadas com o entra e sai de pessoas dos vagões. Meu sentimento por Aquidauana é de profunda gratidão, por tudo o que as gentes dessa cidade do interior de Mato Grosso do Sul fizeram de mim/ por mim. Se hoje reencontro amigos e parentes 20 anos mais velhos, assim como eu, é certo também que encontro o afeto construído por laços de amizade e querer bem. "E é como se eu descobrisse que a força/ Esteve o tempo todo em mim/ E é como se então de repente eu chegasse ao fundo do fim/ De volta ao começo..."