Ela chega para todos indistintamente, algum dia, mas é interessante como não gostamos de falar a respeito ou mesmo de mencionarmos o assunto. Dependendo do povo, é sentida e vivenciada de distintas maneiras, como, por exemplo, entre os índios Bororo de Mato Grosso, que fazem de seus ritos funerários uma forma muito especial e única de manifestação do ser indígena. Entre nós, os não índios, está cada vez mais afastada do cotidiano, com os chamados "serviços póstumos", que se preocupam com os mínimos detalhes quando do velório e/ ou enterro de alguém, afastando sobretudo as crianças do "cheiro da morte".
Sabemos que vamos morrer algum dia, desaparecer aos olhos daqueles a quem amamos e também, porque não dizer, daqueles de quem desgostamos em vida. Contudo, preferimos não mencioná-la em nossas rodas de conversas, sequer aventarmos a possibilidade de aquele ser o nosso último encontro com determinada pessoa, em certo lugar.
Por que estou a falar de morte esta semana? Creio que por três motivos: o primeiro, é que estive em Jardim durante as férias de fevereiro, na casa de meus tios-avôs Gerônima e Emygdio, sobre quem já escrevi para esta coluna, e suas ausências, tão presentes na velha casa em que ambos moraram juntos por décadas naquela cidade, me fizeram sentir saudades profundas de ambos; o segundo motivo, a leitura da carta de despedida do escritor e neurologista anglo-americano Oliver Sacks, ao descobrir que tem outras prioridades nesses últimos meses de vida que lhe restam, pois está com a metástase de um tipo raro de câncer no fígado. Vi o filme "Tempo de despertar" (Awakenings, EUA, 1990) baseado em parte de sua história e sinto o quanto a humanidade perderá com o desaparecimento desse homem. Meus tios já se foram e fazem muita falta por aqui, embora tenham vivido mais de 80 anos de idade. Que bom ter podido me despedir de tia Gerônima, quando vim para o Amapá, em abril de 2013! Sacks em breve partirá, também com mais de 80 anos, grato à vida e a tudo o que ela lhe proporcionou.
O terceiro motivo de eu estar falando da morte nesta semana é que daqui a poucos dias, em 25 de março, se completarão 39 anos da partida de meu pai, João José da Silva. Não há um dia sequer em que eu não me lembre dele, especialmente ao me olhar em um espelho, pois somos muito parecidos fisicamente. Com o tempo, desde aquela quinta-feira em que eu soube que não mais o veria com vida, as saudades do meu velho só aumentaram. E como poderia ser diferente, se uma parte dele, a que ficou presente em mim, reclama pela parte que se foi, sem aviso ou carta de despedida? Faço minhas, algumas das palavras de Sacks, em sua derradeira missiva: "Quando as pessoas morrem, não podem ser substituídas. Elas deixam buracos que não podem ser preenchidos, porque é o destino - o destino genético e neural - de cada ser humano ser um indivíduo único, achar seu próprio caminho, viver sua própria vida, morrer sua própria morte."
Giovani José da Silva