O mês que se encerrou esta semana marca, para mim, a partida de duas pessoas queridas e que tinham em comum o mesmo nome: João. O primeiro, João José da Silva, sobre quem já escrevi para esta coluna por diversas vezes, é meu pai e se foi em 25 de março de 1976. O segundo, John Manuel Monteiro, era simplesmente o maior especialista sobre a temática dos índios na História do Brasil e ao longo de dez anos de convivência tornou-se um grande amigo, além de mentor intelectual. Quando o conheci pessoalmente, em 2005, sentia-me diante de uma espécie de ídolo e o chamava apenas por "professor"/ "senhor". Voltamos a nos encontrar nas ANPUHs de São Leopoldo, RS (Unisinos, 2007), Fortaleza, CE (UFC, 2009) e São Paulo, SP (USP, 2011) e esporadicamente em um ou outro evento científico.
Com o passar do tempo, o John pediu que eu o chamasse pelo primeiro nome e que o tratasse por "você", o que fiz com certa hesitação no início. Ele não era nascido no Brasil, mas era um dos brasileiros mais apaixonados pela História do nosso país que eu já conheci. John nascera em Saint Paul, Minnesota, Estados Unidos, em 1956, e estudou na Universidade de Chicago. O segundo nome, Manuel, revelava a ascendência portuguesa, em uma interessante mistura com um nome tipicamente inglês: John! Lembro-me da primeira vez em que vi o "Professor John Monteiro": foi no simpósio temático da Anpuh de Londrina, PR, quando apresentei um trabalho sobre a guerra e a aliança na história dos Kadiwéu, falando sobre a visão daqueles índios a respeito da Guerra do Paraguai (1864-1870).
O "Professor" pareceu ter gostado da abordagem e fez algumas instigantes perguntas, convidando-me depois para uma conversa em particular. Nascia ali uma relação de respeito e amizade, selada pela troca de e-mails e projetos pensados em conjunto. O John parecia se divertir me escalando para, quase sempre, apresentar-me no último dia dos simpósios que organizava. Eu dizia a ele: "Não vai ter ninguém para me ouvir, vão todos embora!" e ele, com um sorriso agradável e com toda a elegância que lhe era peculiar dizia: "Eu fiz de propósito. Você é um showman, vão estar muitos lá para ver a sua apresentação". E ele tinha razão! O John apreciava o fato de eu falar Kadiwéu, depois de tantos anos morando entre aqueles indígenas. Lembro-me também da última vez em que o vi, agora mestre e amigo: foi numa sexta-feira em Campinas, SP, na Unicamp, na banca de mestrado em Antropologia de Erik Petschelies, autor de um belo trabalho a respeito dos Kadiwéu. Ao me despedir, o John me perguntou: "Nos vemos em Natal, na Anpuh?" Não quis dizer que naquele ano, infelizmente eu não iria ao encontro nacional de historiadores, então balbuciei um "sim, claro!" sem convicção, que não passou despercebido por ele. Era 22 de março de 2013 e quatro dias depois eu e todos os que conviveram com o John fomos pegos de surpresa com a triste e trágica notícia de sua passagem, em um acidente automobilístico.
Lamento a morte do amigo e por não poder ler o prefácio que ele escreveria para o volume 2 de Kadiwéu: Senhoras da Arte, Senhores da Guerra, que organizei e publiquei pela Editora CRV. Uma nova Anpuh se aproxima, desta vez em Florianópolis, SC (27 a 31 de julho) e ao mestre de todos nós só posso dizer, celebrando a vida e a amizade: "Elee -niotagode! Nati nigoitijo GoniGaxinaGanaGa!" (Muito obrigado! Até um dia nosso mestre!, em língua Kadiwéu).
Giovani José da Silva