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Giovani José da Silva

Histórias de Admirar: Jussara, com dois esses!

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      Demorei mais do que o tempo habitual que levo para escrever os textos desta coluna, pois precisava me preparar para encarar as saudades e o tempo transcorrido sem a presença física dela. Este dia 17 de abril marca os 24 anos da partida de uma grande amiga, uma jovem mulher que fez parte do grupo teatral O Sal da Terra, na Escola Estadual "Professora Maria Aparecida Rodrigues", na periferia da Grande São Paulo, entre 1988 e 1990.
 
Jussara de Paula Santos, a Ju ou "Jussara, com dois esses!" era jovem demais quando se foi, vítima de um atropelamento na Rodovia Presidente Dutra, Guarulhos, em um tempo em que passarelas para pedestres ainda eram vistas como um "luxo" e não como necessidade. Ela era esguia, negra, uma jovem bonita e de atitude. Não levava desaforos para casa, colocava suas ideias com intensidade, debatia, brigava e sempre tinha uma resposta irônica na ponta da língua para os que se atrevessem a discutir com ela.
 
Não foram poucas as vezes em que nos estranhamos, mas também foram muitas as reconciliações e gestos de afeto e amizade mútuos. Jussara era fã da banda Legião Urbana, oriunda de uma família humilde, de muitos irmãos. Era tia de Thiago, o sobrinho de quem gostava tanto e a melhor amiga de outra integrante de O Sal da Terra: Núbia! As duas eram inseparáveis e imagino o quanto a Nu não sofreu sem a sua irmã Ju durante todo esse tempo. Jussara foi decisiva nas resoluções que tomamos sobre algumas partes da peça "América Latina, América Mãe", encenada na escola no mês de setembro de 1990, durante uma semana cultural. Foi dela, por exemplo, a ideia de montarmos um quadro ao som de "Um gosto de Sol", nas vozes de Milton Nascimento e Gal Costa. Não poderíamos imaginar que sete meses depois seríamos golpeados com a triste notícia de que nossa amiga havia partido de forma tão trágica e brutal.
 
Não pude comparecer ao velório e ao enterro, pois me encontrava em Aquidauana, recém chegado de São Paulo, para estudar História, no antigo CEUA/ UFMS. Lembro-me de ter viajado alguns dias depois, para reencontrar meus amigos e compartilharmos a dor da perda, além de celebrarmos a vida e a amizade que nos uniam naqueles tempos de "linda juventude". A morte de Jussara nos aproximou demais do temor que a finitude da vida nos traz e também provocou reflexões sobre as dificuldades de se lidar com o tempo que se esvai tão rapidamente, escorrendo por entre os nossos dedos, como água que se tenta agarrar inutilmente. Para minha amiga, que me chamava de Gi (quando estava brava comigo, era um sonoro "GIOVANI") e que sempre que podia lembrava a todos que seu nome era "Jussara, com dois esses, por favor!", dedico o trecho de uma música da Legião Urbana, de quem ela tanto gostava e admirava:
 
"É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Porque se você parar pra pensar, na verdade não há". Agora que você é uma estrela, Ju, ilumine os nossos caminhos, sempre!
 
 
Giovani José da Silva

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