Aqueles anos foram mágicos e eu os guardo em minha memória como um tesouro precioso. Estou me referindo ao final dos anos 1990, quando estudei na então Escola Estadual de Primeiro e Segundo Graus "Professora Maria Aparecida Rodrigues", que chamávamos de MAR (iniciais da professora que dava nome ao estabelecimento de ensino), localizada no Parque Alvorada, em Guarulhos, SP.
Foi lá que entre 1987 e 1990 conheci algumas das pessoas que mudaram para sempre a minha vida e a quem devo muito do que sou hoje: Aldo, Alexandre, Ana Francis, Claudio, Fernando, Flavio, Francisca, Janaína, Joaquim, Josileide, Jussara (in memoriam), Luciana, Mário, Mariluce, Magda, Marcelo, Maria José, Nubia, Silvana, Valdenice e Veruschka. Juntos, 22 jovens (mais Adriana, Antonio Dario, Ariane, Katiuska, Rita de Cássia e outros tantos que nos acompanhavam) da periferia da Grande São Paulo decidiram que não iriam simplesmente estudar e obter o diploma de "Segundo Grau". Eu e meus amigos formamos um grupo de teatro, O Sal da Terra (o nome se deve à passagem bíblica "Vós sois o sal da terra, vós sois a luz do mundo...") e apresentamos entre os dias 21, 22 e 23 de setembro de 1990 o espetáculo "América Latina, América Mãe", na semana cultural da nossa biblioteca "Cora Coralina".
Muitos de nós já trabalhavam nessa época, com 16, 17 ou 18 anos de idade, e aproveitávamos os finais de semana para ensaiarmos a peça, que havia sido escrita por nós mesmos e era composta por 45 quadros, a maioria deles elaborada a partir de uma canção. Além disso, fazíamos "excursões" ao Memorial da América Latina, à Paranapiacaba (distrito do município de Santo André), além de assistirmos a filmes, espetáculos de música, dança e teatro. Éramos jovens descobrindo que os nossos mundos poderiam se expandir para além da periferia e que mesmo sendo muito pobres tínhamos nos estudos, nas leituras e exercícios teatrais uma fonte inesgotável de autoconhecimento e de desvendamento do universo.
Nem tudo naqueles anos deu certo ou foi "perfeito": brigamos muitas vezes entre nós, tivemos algumas baixas no grupo, alguns de nós sofreram duros golpes do destino, como nossa amiga Nubia que perdeu o irmão pouco antes de estrearmos "América Latina, América Mãe". Contudo, olhando para trás, faz 25 anos que vivemos intensos momentos de amizade, de alegrias e celebrações e também, momentos de tristeza, de compartilhar perdas e dores, que fazem parte da vida de quaisquer pessoas. Justiça seja feita, o grupo talvez não existisse sem a presença sempre instigante do Prof. Mário Bombassei Filho (in memoriam) em nossos tempos de escola. Ele e as professoras Rainalva e Ana Lúcia foram os grandes incentivadores do grupo O Sal da Terra e nos ensinaram mais do que Artes, História ou Geografia.
Aos professores e aos amigos com quem dividi o palco, além de sonhos, angústias e esperanças, um brinde! Afinal, "Vamos precisar de todo mundo/ Pra banir do mundo a opressão/ Para construir a vida nova/ Vamos precisar de muito amor...". VIVA A VIDA!
Giovani José da Silva