Apesar de mágicos, aqueles anos (1987-1990) não foram fáceis: estávamos vivendo a "ressaca" do período sombrio que vivera o nosso país, da ditadura-civil militar (1964-1985), também chamado por nós de "anos de chumbo". Éramos estudantes de uma escola da periferia da Grande São Paulo, localizada em Guarulhos, em um bairro carente de recursos, como tantos outros bairros distantes do centro da cidade e das preocupações mais imediatas de políticos e gestores.
No Parque Alvorada, bairro onde a Escola Estadual de Primeiro e Segundo Graus "Professora Maria Aparecida Rodrigues" se localizava, faltavam ruas asfaltadas, esgotamento sanitário, água tratada todos os dias nas torneiras, transporte público de qualidade, além de equipamentos culturais. Muitos colegas de escola, inclusive, conheceram cedo demais o mundo das drogas e da bandidagem.
Apesar disso, e talvez justamente por vivermos tal situação, a presença de professores comprometidos com uma Educação de qualidade nos animava e incentivava a irmos mais longe do que as estatísticas diziam na época que poderíamos chegar. Sabíamos que adolescentes e jovens como nós "pretos e pardos, pobres e vivendo em condições de vulnerabilidade" éramos aqueles que morriam mais cedo, seja pela violência ou pela carência de recursos. Decidimos, ainda que involuntária ou inconscientemente, remar contra a correnteza e não cedermos à realidade que nos cercava. Juntos, formamos o Sal da Terra, grupo de teatro de duração efêmera, mas que, tenho certeza, marcou a vida de cada um daqueles meninos e meninas para sempre!
Contudo, juntar tantas pessoas, mais de vinte, em um mesmo tempo e espaço, nunca foi tarefa fácil para este articulista, que exercia o papel de líder e de diretor da trupe. Nossas inspirações vieram, sobretudo, dos projetos do Professor Mário Bombassei Filho (in memoriam), que ministrava aulas de Educação Artística, além de Filosofia e Sociologia. Como esquecer os trabalhos que realizamos a partir de uma poesia de Carlos Drummond de Andrade, intitulada "Eu, etiqueta"? As aulas de Rainalva, a Rai, nossa professora de História; de Ana Lúcia, de Geografia; de Lélia, com os trabalhos sobre Literatura Brasileira, além dos cálculos e gráficos de Matemática do professor Miguel, para ficarmos em apenas alguns exemplos, nos abriram portas e janelas para adentrarmos outros mundos, conhecermos diferentes concepções e explicações para as precárias condições em que nós e tantos outros viviam.
Aqueles anos foram vivenciados intensamente e tudo o que fazíamos juntos era intenso, inclusive nossos desentendimentos e brigas. O afeto que me uniu àquelas pessoas transformou-se em amizade, querer bem e hoje traz, por meio das lembranças, uma nostalgia boa e um sentimento de que tudo valeu a pena! Como diria a letra da música "O que vale é a amizade", cantada por MPB-4 e ouvida por nós em tantas reuniões de O Sal da Terra: "É, apesar de não termos podido mudar esse mundo burguês/ É apesar de não ter dado certo esse sonho que a vida desfez/ Eu sei que posso contar com vocês".
Giovani José da Silva