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Giovani José da Silva

Histórias de Admirar: O Presente

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      No último domingo comemoramos o Dia das Mães e eu lembrei que em 1991 eu escrevera para O Pantaneiro, em dezembro daquele ano, um texto sobre o Natal, que na verdade era comemorativo ao aniversário de Dona Gregoria, minha mãe. Então, peço licença aos leitores deste jornal, para reproduzir o texto, quase 24 anos depois de o mesmo ter sido publicado, quando não havia para nós, ainda, Internet. Era o primeiro ano longe de casa, distante do meu lar e dos amigos e lendo-o novamente, depois de tanto tempo, sinto que no momento em que o produzi as saudades tomaram conta de mim.
 
"Natal... Ano-Novo... Época em que as pessoas tentam 'ser humano', algo que aliás deveriam tentar o ano inteiro, a Vida inteira. Lembro que certa pessoa dissera uma vez a mim que as relações humanas estavam mercantilizadas. Eu não entendera bem... Agora começo a perceber o significado disso. Passei o dia inteiro pensando num presente para a mãe. Não é pelo Natal e muito menos pelo Ano-Novo: o aniversário dela está próximo. Já não sei quantas luas se passaram desde o seu nascimento e por isso conto apenas os anos. Em dias anteriores perguntei-lhe o que afinal gostaria de ganhar. Um silêncio e um sorriso me foram dados como respostas. Não insisti. Para uma pessoa que parece precisar tão pouco para viver... O que posso dar a ela? Se pudesse resgatar as coisas mais preciosas que essa mulher perdeu pelo caminho... Ah, se eu pudesse! 'Filho, um guarani pode perder tudo, mas não perde sua dignidade nunca'. Palavras sábias de mãe.
 
Natal... Ano-Novo... datas que para a minha aniversariante não fazem sentido algum. Missa-do-galo... peru de festa... Quantas aves! Ave-Maria, cheia de graça. Mãe, me explica: que graça pode existir em se tentar ser o que não se é durante a maior parte do tempo??? Chego em casa cansado, irritado com essas preocupações e a encontro dormindo, serena. Me aproximo sem fazer barulho, mas ela acorda dizendo que já é tarde e me pergunta por que demorei tanto. Eu não comprara presente algum. De súbito me vem um forte impulso, eu a abraço e digo chorando: ?Ñandejara tande rovasá che sy?. Estou presente, mãe!"
 
Mantive a grafia original utilizada quando fiz o texto, datilografado quando tinha pouco mais de 19 anos de idade, na máquina de escrever do professor Arnaldo Begossi. Aliás, dedico o texto dessa semana às mães, especialmente àquelas que encontrei pelo caminho, em especial à dona Gregoria e à professora Vilma Begossi, esposa de Arnaldo. Enquanto a minha mãe biológica me ensinou a ler e a interpretar o mundo, Vilma me ensinou a ler e a interpretar o mundo das palavras. Sou um homem afortunado, afinal, pois ganhei dois valiosos presentes na vida! E aquele jovem rapaz, que vive dentro de mim, sorri serenamente. Obrigado, mães! Estou presente!
 
 
Giovani José da Silva

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