Desde criança costumo brincar que, tendo duas irmãs, uma mais velha e outra mais nova, sou o "problemático filho do meio" em minha família. Brincadeiras à parte, o fato é que tendo nascido dos mesmos pais de Giani Ramona da Silva e de Rita de Cássia da Silva, sinto-me um privilegiado. Elas são diferentes em muitas coisas, possuem também características em comum e são duas mulheres incríveis em suas maneiras de encarar a vida.
Giani, a mais emotiva, já foi casada algumas vezes, teve dois filhos (sendo que um deles, o mais velho, partiu ainda bebê) e foi quem mais conviveu com nosso pai, João. Rita de Cássia, sempre mais contida, é casada há tempos com o mesmo homem, tem uma filha e não possui lembranças do nosso velho. Ambas professoras, minhas duas irmãs têm características físicas marcantes: Giani é uma mistura de Gregoria e João, enquanto Rita é o retrato da mãe quando jovem. Com a mais velha vivemos uma relação marcante e pendular de proximidade e estranhamento, visto que há uma distância de cinco anos de idade entre nós. Com Rita, sempre tive um jeito de irmão que protege e cuida, embora nos desentendêssemos com frequência na infância, o que me custava boas palmadas de minha mãe, além de repreensões pelas brigas.
Por falar nelas já brigamos muito, os três, ao longo da vida. Entre palavras mal colocadas, frases cortantes e silêncios angustiantes (além, é claro, de tapas e empurrões na meninice) já dissemos, ou deixamos de dizer, uns aos outros, coisas que somente quem têm irmãos sabe: poderiam ter sido evitadas ou faltaram ser colocadas. Entretanto, sinto que não é nos desentendimentos que nos fazemos mais irmãos. Pelo contrário, é na reconciliação, no pedido de desculpas, na cara que se desamarra, na lágrima de emoção que brota após um abraço ou no desabafo que a nossa fraternidade se revela com intensidade e vence qualquer "picuinha" que possamos ter.
Giani fala alto, às vezes não deixando ninguém à volta falar, é despachada e sempre gostou de barulho e agitação. Rita, pelo contrário, é mais calada, embora por vezes tenha ficado sem voz, ao lidar com seus alunos pequenos; é caseira e avessa a badalações. Cada uma, a seu modo, construiu uma vida, muitas vezes marcada por dores e sofrimentos, mas também por alegrias e esperanças. A essa altura, o leitor desta coluna pode estar se perguntando: O que tem de admirar nessa história de duas irmãs, tão diferentes e tão parecidas entre si? Respondo, sem rodeios, que me tornei o homem que sou também graças a essas duas pessoas, pois elas foram o meu Outro, diferentes de mim e suficientemente semelhantes para que eu me olhasse e construísse o meu jeito próprio de ser gente.
Devo isso às duas irmãs e embora talvez nunca tenha verbalizado a elas o quanto foram importantes na construção do Eu, deixo aqui o registro da admiração, do respeito, do amor e da fraternidade que nos une através dos tempos. Sei que somos a expressão concreta do amor que uniu dois jovens um dia e que carregamos de cada um deles a melhor parte desse amor. Giani Ramona e Rita de Cássia, amo vocês, pois são, juntamente com Gregoria, nossa mãe, as "mulheres da minha vida"!
Giovani José da Silva