Arnaldo Begossi, meu professor de Economia e Sociologia nos tempos do antigo CEUA/ UFMS (1991-1994), escreveu um texto para O Pantaneiro sobre mim, por ocasião do Prêmio Victor Civita - Professor Nota 10, em 2001. Lembro-me que ele usara a expressão "pau rodado" para se referir ao fato de eu - assim como ele e Vilma Begossi - ter vindo de fora e me instalado em Aquidauana (ainda que não tenha me fixado na cidade após a conclusão do curso de História).
Hoje, morando em Macapá, tendo vivido em diferentes Estados da Federação (São Paulo, Mato Grosso Sul, Mato Grosso, Goiás, Rio de Janeiro e, agora, Amapá) sinto-me, de fato, um "pau rodado", o que me faz sentir, também, que sou um cidadão do mundo! Desde que decidi sair de casa, aos 18 anos, e morar em Mato Grosso do Sul, vivi tantas experiências incríveis que, como diria Arnaldo, fica até difícil de acreditar que tenho apenas 43 anos! Morei em vários municípios sul-mato-grossenses (além de Aquidauana, estive em Porto Murtinho, Campo Grande, Três Lagoas, Nova Andradina, Bodoquena e Dourados).
Tantos lugares, tantas pessoas e um "balaio" de histórias de admirar para contar... O Pantanal foi minha morada por quase uma década, ora trabalhando junto aos Kadiwéu, ora auxiliando aos Guató, em Corumbá. Também trabalhei entre os Ofayé, de Brasilândia e os Kinikinau, espalhados entre aldeias Terena e Kadiwéu no Estado. Convivi com pajés Terena. Não imaginei que iria encontrar em meus caminhos os Atikum, os índios negros migrantes de Pernambuco, e nem os Kamba, cujos ancestrais são oriundos da Bolívia. Nas fronteiras de nosso país me formei professor de História e antropólogo e aqui no extremo Norte continuo a minha formação de homem fronteiriço. Penso ter herdado de minha mãe, Gregoria, o gosto pelas andanças, aparentemente sem um local certo de parada, vivendo cada momento como se fosse o último, intensamente.
Aquele menino franzino, órfão de pai, tímido e solitário, encontrou pessoas ao longo das trilhas percorridas que o fizeram crescer e ganhar força (e o mundo!). Impossível nominar todos no curto espaço dessa coluna, mas sinto-me honrado por compartilhar da amizade de gente tão boa, que me faz querer ser melhor. Melhor do que fui ontem, melhor do que sou hoje, melhor do que serei amanhã, com absoluta certeza. Nessas idas e vindas, muitas dúvidas me assaltaram, mas um sentimento sempre me acompanhou: a vida em pequenas cidades, em aldeias indígenas, em uma ilha no coração do Pantanal (!), na capital do Estado, valeu a pena ser vivida! As escolhas feitas, as amizades desfeitas, os reencontros, as despedidas, tudo o que me ocorreu nos anos passados em Mato Grosso do Sul me fizeram ser quem sou e moldaram meu caráter, me trouxeram brilho aos olhos e a vontade de fazer mais e bem feito.
Hoje, com o olhar de quem está longe fisicamente, penso nas palavras de meu professor e pai "postiço" Arnaldo Begossi e reafirmo: "sou um pau rodado" e por isso mesmo creio que chegará o momento de retornar e começar novas histórias, retomar outras tantas e me reinventar!
Giovani José da Silva