"Quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos...": assim começa a bela canção de Beto Guedes e Ronaldo Bastos, "Sol de primavera". Esta e outras músicas embalaram uma peça de teatro apresentada há 25 anos, na biblioteca de uma escola da periferia da Grande São Paulo. Apresentada pelo grupo O Sal da Terra, "América Latina, América Mãe" foi um momento único nas vidas daqueles adolescentes e jovens que se reuniram em torno de um projeto coletivo de Arte e de vida.
Eu (diretor artístico!), Aldo, Alexandre, Ana Francis, Cláudio (Magal), Fernando, Flávio, Francisca, Janaína, Joaquim, Josileide, Jussara, Luciana, Magda, Marcelo, Maria José, Mariluce, Mario, Núbia, Silvana, Valdenice e Veruschka éramos estudantes do Ensino Médio (na época chamado "Segundo Grau") da Escola de Primeiro e Segundo Graus "Prof.ª Maria Aparecida Rodrigues", localizada no Parque Alvorada, em Guarulhos. Ali convivemos com professores que nos abriram portas e janelas para sonharmos com dias melhores e mais iluminados: Mário Bombassei, Rainalva, Ana Lúcia, Miguel Monteiro, Lélia e outros que ao passarem por nós deixaram suas marcas.
Como esquecer os embates com Dona Lia, a diretora, carinhosamente chamada por nós de "Poderosa"? E dos movimentos que realizávamos dentro e fora da escola, mobilizando a comunidade escolar e o seu entorno? Vivíamos um tempo em que a escola pública paulista já apresentava sinais de gradativa deterioração, mas sentíamos fazer parte de algo muito maior, que estava para além daquelas paredes, em uma época em que não havia celulares, computadores portáteis, CD ou DVD.
Foi nesse contexto que apresentamos nos dias 21, 22 e 23 de setembro de 1990 uma peça teatral com mais de três horas de duração (!) e que falava sobre nós e nossos sonhos e temores juvenis. Ao som de Kiko Zambianchi, Gilberto Gil, Belchior, Paralamas do Sucesso, Elis Regina, Chico Buarque, Oswaldo Montenegro, Caetano Veloso, Legião Urbana, Simone, Gal Costa, Ivan Lins e tantos outros, desfilamos diante de uma plateia encantada as dores, as mazelas, as esperanças e as utopias de uma época e de uma geração. Temos poucas imagens fotográficas daquele e de outros eventos (como a festa do Dia das Crianças), bem como nenhuma gravação: éramos muito pobres e não tínhamos condições de realizar registros dessa natureza.
Passados mais de 25 anos, olho para trás e recordo com alegria e nostalgia daqueles anos de convivência e aprendizado. Não há motivos para arrependimentos ou frustrações, pois fizemos e fomos o que pudemos fazer e ser naquele momento histórico: jovens de nosso tempo! Creio que há muito o que aprender com as histórias que carregamos, com nossas lembranças e impressões. O tempo passou para todos nós e alguns já não se encontram mais fisicamente presentes, mas O Sal da Terra viverá no mundo dos sonhos para sempre, em nossos corações e mentes. Aprendemos muito uns com os outros e ainda temos muito a saber com aqueles meninos e meninas que fomos e com a vida que cada um seguiu depois daqueles anos incríveis. Afinal, voltando à mesma canção com a qual iniciei o artigo dessa semana, "A lição sabemos de cor, só nos resta aprender".
Giovani José da Silva