"Anda, quero te dizer nenhum segredo/ Falo desse chão, da nossa casa/ Vem que tá na hora de arrumar...": muitos perguntam até hoje a mim e aos outros participantes de O Sal da Terra se a escolha do nome do grupo foi devido ao título da música de Beto Guedes. Na verdade, muito antes de conhecer e gostar da música, eu frequentara a catequese na Igreja Católica e conhecera os versículos de Mateus 5: "Vós sois o sal da terra...".
Quando formamos o grupo de teatro, na E.E.P.S.G. "Prof.ª Maria Aparecida Rodrigues", pensei em dar o nome de O Sal da Terra e foi assim que nos apresentamos em "América Latina, América Mãe", setembro de 1990, na Biblioteca Escolar "Cora Coralina". A peça teatral não tinha propriamente diálogos, mas sim uma sequência de "quadros", cada um deles com uma música-tema. Ao todo foram 45 esquetes, em que cada um dos participantes teve seu momento de "protagonista". Ali discutíamos de tudo um pouco: controle social, reforma agrária, política eleitoral, migração, êxodo rural, a vida nas grandes cidades, industrialização, homossexualidades, amizade, capitalismo, censura, história do Brasil, desmatamento, aborto, a temática indígena, religiões, menores abandonados, as mulheres, questão nuclear, telecomunicações, televisão e outros meios de comunicação, escravidão, o tempo.
Olhando para trás, penso que queríamos dizer tudo e um pouco mais sobre nossos sonhos, angústias, críticas e impasses. Nossos professores nos davam liberdade para estudarmos o "conteúdo" do antigo Segundo Grau e, ao mesmo tempo, ensaiarmos nossa peça, o que nem sempre conseguíamos conjugar com equilíbrio. Por meio de "América Latina, América Mãe" desejávamos nos expressar, nos expor e, ao mesmo tempo, expor as mazelas da sociedade em que vivíamos, como alunos pobres de uma escola da periferia da Grande São Paulo. Nem sempre tivemos a compreensão de nossos pais, de outros colegas ou mesmo da direção da escola, mas sempre agimos com respeito e verdade sobre aquilo que nos movia, em nossa "linda juventude". A escolha das músicas que compuseram a peça foi um processo demorado e cheio de idas e vindas: em algum momento queríamos por várias músicas de determinado cantor e em seguida decidíamos o contrário! Olhando hoje para a seleção que fizemos, vejo o quanto acertamos em algumas escolhas, especialmente aquelas que eram novidades para a maioria de nós. Recuperamos músicas brasileiras dos anos 1960 e 1970 e como toda experiência histórica, "América Latina, América Mãe" traz algumas coisas que ficaram datadas: isso explica, por exemplo, a inclusão de músicas que tocavam em telenovelas do final dos anos 1980 e início dos 90.
Era eu quem dirigia (por vezes com mão de ferro!) aquele grupo e hoje me pergunto como conseguia alguma coesão, lidando com 21 adolescentes e jovens (Aldo, Alexandre, Ana Francis, Claudio, Fernando, Flavio, Francisca, Janaína, Joaquim, Josileide, Jussara, Luciana, Magda, Marcelo, Maria José, Mariluce, Mario, Nubia, Silvana, Valdenice e Veruschka), como eu, cujos hormônios, vontades, jeitos e manias pareciam estar fora de controle! Como já disse certa vez Maria José (musa inspiradora, a quem eu chamava carinhosamente de "Mary Jô"): amei, odiei e amei novamente aqueles meninos e meninas, meus irmãos de sal, meus irmãos de terra. Afinal, "vamos precisar de todo mundo/ Pra banir do mundo a opressão/ Para construir a vida nova, vamos precisar de muito amor/ A felicidade mora ao lado e quem não é tolo pode ver."
Giovani José da Silva