Olá, pai!
É a primeira vez, nesses quase quarenta anos de sua ausência física, que eu lhe escrevo, para lhe contar como andam as coisas por aqui, desde a partida naquele (trágico, para mim), 25 de março de 1976. Não houve tempo para despedidas prolongadas, apenas o vazio da notícia que devastou a todos nós, que ficamos sem o senhor, sem casa para morar, sem nossas vidas no lugar que eu, minha mãe e minhas irmãs achávamos que deveriam estar.
Como é morrer, pai? A pergunta pode parecer estranha, mas como é viver sem sua presença eu posso lhe dizer em poucas palavras: é triste e tem a cor cinza, de um dia nublado. Não quero transformar esta carta em um amontoado de lamentações, tampouco desejo que se aborreça comigo com minhas perguntas, quase infantis: o senhor já reencarnou, como acreditam budistas e espíritas? Está no céu, como dizem os católicos? Lembra-se de nós, ainda? Não houve um dia sequer nesse tempo todo que eu não tenha lembrado do senhor. Isso teria sido possível somente se eu não me parecesse tanto contigo, fisicamente e no jeito de ser e de levar a vida.
Por falar em vida, pai, as coisas não andam nada fáceis no planeta (alô, alô, marciano...). Nos últimos dias, meses e anos descobri tantas novidades, que eu julgava, até então, que fossem apenas "lendas" ou "historinhas". Soube, por exemplo, que quando dizem que uma novela chega ao último capítulo (e olha que eu já fiz novela, pai!), nem sempre é verdade: pode haver uma continuação (e outra e mais outra, para meu total espanto e decepção!). Descobri, também, que por mais que tenhamos feito ou falado coisas boas às pessoas, basta apenas uma "pisada na bola" para que deixemos de ser vistos e sentidos como alguém querido. Isto dói, pai! Muito!
Talvez a melhor lição dos últimos tempos tenha sido a de que nem sempre agimos conforme nossas palavras, nem sempre falamos da forma como agimos e, muitas vezes, o dito não é feito e vice-versa. Em resumo, somos uma contradição ambulante! Você teve pouco tempo para experimentar tudo isso, meu velho. Já eu, estou aprendendo a duras penas as lições e tendo vivido, até agora pelo menos, mais dez anos que você, sei que posso aprender muito, ainda. Ah, a raiva que senti do senhor por nos ter "abandonado", sem ter "lutado" contra a doença que lhe roubou a vida e me deixou órfão, aquela raiva já passou. No lugar dela, agora, vivem em mim a fé, a saudade e, também, a compaixão, o tentar colocar-me no lugar do outro, sabendo que haverá dias em que acertarei mais (e alguns menos) nas buscas por ser um ser humano melhor.
Afinal, por que estamos aqui, mesmo? Despeço-me com um agradecimento necessário e, espero, nada clichê. Obrigado por ter feito a mim com todo o amor que nutriu pela minha mãe, Gregoria, a mais bela flor paraguaia. Ela acredita que o reencontrará algum dia e que viverão juntos novamente. É uma mulher de fé! Tomara que ela esteja certa, pai! A sua benção.
Giovani José da Silva, o seu único filho homem, que é a sua "cara" e o seu coração! João José da Silva vive!