Nesta última semana o Ministério da Educação entregou ao Conselho Nacional de Educação um documento chamado de 2ª. versão preliminar da BNCC (Base Nacional Comum Curricular). Decepção, frustração e incômodo são as palavras que me vêm à cabeça quando penso que dez meses de trabalho na Comissão de especialistas (História) resultaram na aprovação de um texto escrito sabe-se lá por quem, repleto de equívocos históricos, historiográficos e pedagógicos. Abaixo, transcrevo na íntegra um texto escrito em 10 de outubro de 2015, mas que o bom senso não me permitiu publicar na ocasião!
"Interrompo a série sobre 'América Latina, América Mãe' para fazer um desabafo aos leitores nesta semana. Depois de passar meses trabalhando duro na Comissão de especialistas instituída pelo MEC para pensar e redigir o documento preliminar da Base Nacional Comum Curricular - componente curricular História, me deparei nos últimos dias com declarações disparatadas do ex-ministro da Educação Renato Janine Ribeiro e do atual ministro Aloizio Mercadante. O primeiro, em uma postagem no Facebook (08/10) afirmou que "Não havia, na proposta, uma história do mundo. Quando muito, no ensino médio, uma visão brasilcêntrico das relações com outros continentes". O segundo, em uma entrevista para o Estadão (10/10) declarou que "História também precisa aprimorar, porque tem muita África e história indígena e pouco da história ocidental". No meio disso tudo, fiquei pensando: o que um filósofo e um economista entendem de Ensino de História? Mais do que isso: o que esses dois senhores entendem de saber histórico escolar? Saberiam diferenciá-lo do saber histórico acadêmico? E minhas perguntas me levaram para o questionamento que dá título ao artigo desta semana: afinal, de que barro somos feitos? Sim, porque até agora em nossas escolas aprendemos apenas uma versão da história: a dos brancos, europeus que chegaram e ocuparam terras em que já viviam outros povos, além de trazerem, à força, milhões de pessoas de África, durante o período histórico em que a escravidão era legalizada. Nunca ouvi ministros da Educação (e ex-ministros) se queixarem de que a história ensinada no Brasil "tinha muita Europa e história de brancos". Depois de estudar tanto, fazer graduação, mestrado e doutorado em História, trabalhar com Prática de Ensino em duas universidades federais (a UFMS e a Unifap) percebo que nesse país qualquer um pode falar sobre Ensino de História... Não se questiona a Matemática ou as Ciências Naturais, por exemplo, mas a História... Ah, essa disciplina eivada de "ideologias", nessa sim podemos ter a opinião de filósofos, economistas, geógrafos, sociólogos, etc. Os textos do componente curricular História estão no Portal da Base desde o dia 25 de setembro último. Entraram atrasados (os demais entraram no dia 16/10) porque a equipe de especialistas da qual faço parte sofreu ingerências no processo de elaboração do documento, por parte do (agora) ex-ministro, que afirma ter deixado "[...] claro como água que o texto inteiro da Base que foi divulgado NÃO era um documento oficial do MEC, mas uma proposta elaborada a convite dele. Portanto, quem o quiser criticar que o faça, mas sem atribuí-lo ao MEC. Banal, isso". Só não é banal o desrespeito com que eu e mais treze colegas (Antonio Daniel, Claudia, Itamar, Leandro, Leila, Margarida, Marcos, Maria da Guia, Marinelma, Mauro, Reginaldo, Rilma e Tatiana), estamos sendo tratados a partir dessas declarações. Desconsiderar a importância do protagonismo de populações indígenas e negras na história do Brasil é perpetuar nas escolas do país as narrativas excludentes e eurocêntricas que estiveram onipresentes nas aulas de História desde sempre. Queremos, eu e meus colegas especialistas, o debate de ideias, o diálogo com professores e pesquisadores para que nossas propostas preliminares sejam analisadas e recebam sugestões de acréscimos, de supressões, enfim, a crítica. O primeiro passo foi dado, o de provocar estranhamento naqueles que se acostumaram a uma história que não fala às crianças e aos jovens da Educação Básica, a uma história sem índios e sem negros, a uma história sem cor. Inclusive em meus colegas, professores e pesquisadores como eu. Mas, afinal, de que barro mesmo somos feitos?
Giovani José da Silva