Giovani José da Silva
Publicado em 28/10/2016 às 04:00
Atualizado em 10/09/2026 às 14:04
O texto desta semana traz a cara lembrança de um amigo, um grande amigo, meu melhor amigo por quase uma década! Lembrei-me com saudades dele na última semana, ao passar pela Avenida Paulista, local onde eu o encontrei pela primeira vez, há vinte anos! Lá estava um jovem senhor, máquina fotográfica pendurada no pescoço, boné virado para trás, um tanto desengonçado, mas com um olhar curioso e, eu diria, quase infantil... Aproximou-se de mim e perguntou-me se eu saberia dizer onde se localizava a Casa Fuji, pois, segundo lhe informaram, lá haveria uma interessante exposição fotográfica. Eu lhe respondi que não sabia, mas que poderia leva-lo à outra casa, a das Rosas, onde eu vira uma exposição de imagens, ali mesmo na Paulista. Ele aceitou sem hesitação meu convite para irmos juntos ver a tal Casa das Rosas, uma joia arquitetônica do início do século XX que resiste ainda hoje em meio a arranha-céus "modernosos", e ali nascia uma grande amizade. Seu nome? Célio Antonio Ortolan, natural de Cordeirópolis, bairro rural de Cascalho, próximo à Americana, interior do Estado de São Paulo. Filho do casal (in memoriam) Antonio Ortolan e Amelia Kiler Ortolan, Célio nasceu em meio a uma família de sete irmãos, incluindo-o, em setembro de 1949. Quando o conheci, naquela manhã de um domingo qualquer de 1996, ele já estava prestes a se aposentar e queria dedicar-se exclusivamente à paixão maior: a fotografia. Venceu inúmeros concursos, um deles inclusive nacional (promovido pelo Domingão do Faustão). Meu amigo era um aficionado pela captação de imagens e elaborava belíssimas composições visuais com suas máquinas/ engenhocas "profissas". Eu o convidei para visitar as aldeias Kadiwéu, em Mato Grosso do Sul, entre 1999 e 2001, e ele prontamente respondeu ao convite com entusiasmo, participando de duas etapas de formação continuada de professores indígenas. Tornou-se, assim, nosso fotógrafo "oficial", embora não gostasse que tirassem fotos suas. Dessas viagens, guardo com carinho as imagens captadas por Célio, de gentes, flores, animais e paisagens. Os indígenas, especialmente as crianças, se encantaram por aquele homem "branco" (muito branco) que se emocionava com coisas muito simples, a ponto de chorar. Apreciava a culinária da fronteira Brasil-Paraguai, especialmente a chipa e a sopa paraguaias, feitas por minha mãe, dona Gregoria, que o tratava com enormes carinho e atenção. Em um tempo em que não havia Internet à disposição de muitas pessoas no Brasil, Célio e eu trocávamos inúmeras correspondências escritas. As cartas de Célio chegavam sempre com algum recorte de jornal ou foto de sua autoria. Foi assim, por exemplo, quando fiz parte da equipe da telenovela Alma Gêmea, entre 2005 e 2006, e recebi de meu amigo, todo orgulhoso, uma reportagem especial sobre meu trabalho, veiculada em um jornal local que circulava em Americana, onde ele morava na época. As minhas cartas iam em sua direção carregadas de conselhos, de "puxões de orelha" e de afeto, muito afeto. Meu amigo Célio partiu para a terra dos sonhos em dezembro de 2005, há mais de dez anos, portanto. Dele restaram as belas fotografias que tirou ao longo do tempo em que se dedicou à arte de "captar a alma das pessoas" e, mais do que isso, a vívida lembrança de um ser sensível e encantador. Célio, amigo querido, agora que se tornou um "encantado", espero que encontre a paz e o amor tão almejados por você em sua vida terrena e olhe por todos nós que tivemos o privilégio de conviver contigo e compartilhar a vida. Obrigado!
Giovani José da Silva
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