Giovani José da Silva
Dia de Finados, ou Día de los muertos, data especialmente propícia para reflexões em torno da morte. Não, caros leitores, este não será um texto tétrico ou choroso, lhes prometo. É que convivo com a morte desde pequeno, tendo visto partirem meus pai, avô paterno e sobrinho antes dos 12 anos de idade. Também "perdi" um amigo de infância, tragado pelas águas do mar; uma amiga de adolescência/ juventude em um estúpido acidente ocorrido na Via Dutra; outras tantas "perdas" se seguiram ao longo dos anos... Não sei exatamente se "perdemos" alguém com a morte, pois penso que há outros tipos de "perda": quando alguém que amamos nos abandona, quando abandonamos quem nos ama, quando laços de amizade (que pareciam inquebrantáveis) se rompem e sentimos ser para sempre! Pessoas e coisas "vivem" e "morrem" ao longo de nossas existências e, muitas vezes, não nos damos conta disso. Passamos, talvez, muito tempo a lamentar a ausência de alguém querido/ amado ao nosso lado, mas evitamos uma conversa franca e honesta com nossos próprios sentimentos sobre o sentido da perda. O que se pode fazer diante da partida (seja física ou não) de alguém? Creio que uma boa resposta esteja em vivenciar o luto, com toda a tristeza que este momento traz consigo e chorar e chorar até... passar! O tempo, já aprendi há muito tempo, não cura nada, mas alivia as dores provocadas pelas saudades, pela vontade louca de que o ser amado/ querido estivesse ali, como antes. Nada, nada será como antes! É certo que com a morte física, situação irreversível, é muito mais difícil de se lidar, mas o fato é que quando alguém "mata" ou "morre" em uma relação afetiva, às vezes por motivos tolos e inconsequentes, a dor da "perda" é grande e terrível para quem se sente abandonado ou deixado para trás. Este ano que se encerra proximamente foi um ano de dolorosas "perdas" para mim... Meus tios avós, Paulino e Petrona, ambos moradores de Porto Murtinho, partiram e deixaram muitas saudades. Felizmente, consegui vê-los com vida e, de certa, forma, me despedir deles. Pior foi não ter conseguido dizer "adeus" adequadamente àqueles a quem amo e que continuam vivos em meus pensamentos e sentimentos, mas que não querem mais conviver comigo. Devoto a eles, todos os dias, minhas orações e boas vibrações, a fim de que fiquem/ estejam bem, ainda que não desejem mais a minha companhia afetiva. Talvez este seja o maior aprendizado deste momento de minha vida: deixar "morrer" pessoas e coisas que já não fazem mais parte dela e recomeçar, continuar a viver, seguir em frente, com boas lembranças, sem rancores, mágoas ou ressentimentos. Há quem possa dizer: escrever/ falar tudo isso é fácil, Giovani, quero ver colocar em prática. Como já escrevi nos textos da coluna diversas vezes, eu não tenho receitas prontas a oferecer a ninguém, muito menos a mim. Tenho tentado lidar com as "perdas" que a vida me traz sempre pensando/ sentindo que fazem parte do "show" e que este deve continuar, apesar da dor, do luto e das saudades. Por isso, ouso dizer, caros leitores, que o jardim voltará a florescer, mas somente quando soubermos lidar com as ervas daninhas, retirar as folhas mortas e secas, permitir que haja espaço para o "novo", lembrando que o "velho" pode servir como adubo para fertilizar a terra e que tudo, absolutamente tudo, é um aprendizado. Que as lágrimas sejam como chuva na medida certa, sem excessos ou faltas; que o luto se transforme em cor e música; que o jogo da vida continue a ser jogado, sem faltas duras ou impedimentos. Viver, morrer, viver! Viva a vida! E a morte! Por que não?
Giovani José da Silva
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