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Giovani José da Silva

HISTÓRIAS DE ADMIRAR: ORAÇÕES

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Sempre me perguntei por que minha mãe, Dona Gregoria, vivia rezando tanto! Desde que a conheço (e lá se vão mais de quarenta anos) ali está ela, com o rosário nas mãos, lábios entreabertos, proferindo em voz baixa, quase inaudível, palavras de benção e de louvor. Erroneamente, imaginava eu que ela sempre estivesse pedindo algo – a Deus, a Nossa Senhora, a Jesus Cristo ou a algum santo do dia (ontem por exemplo, 24 de abril, foi dia de São Fidélis de Sigmaringen, sabiam? Eu, não!) – em meio às Ave-Marias, Salve Rainhas, Credos e Pais-nossos... Nada disso, caros leitores! O que esta mulher criada pelos avós maternos como filha, na fronteira do Brasil com o Paraguai, fez/ faz durante suas orações, é agradecer por tudo o que já lhe aconteceu e o que está por vir, inclusive pelas perdas, pelos danos, pelas tristezas... Como assim?  Sabiamente, ela intui, melhor do que muita gente que vive proferindo nomes santos em vão, que orações são eficazes meios de nos conectarmos com o divino que há em cada um de nós, com a centelha ou “atman” (para os budistas) que nos habita desde sempre! Aprendi a rezar/ orar com ela e confesso que não faço minhas orações tanto quanto gostaria. As atribulações do dia a dia, a pressa, a correria ou mesmo a preguiça me impedem de dizer palavras benditas com regularidade. Ocorre que no mundo vasto mundo em que vivemos, com tanta gente com raiva e proferindo palavras de ódio e de intolerância, destilando venenos e ferindo uns aos outros com dizeres pesados, penso/ sinto que está faltando mais oração/ meditação/ silêncio. Lembro-me de um pajé Terena que conheci há muitos anos, que me dizia ser importante existir rezadores pelo mundo, fossem freiras, monges, pajés, benzedores. Caso contrário, nós todos estaríamos a mercê da ira, da ganância, do descaso e de todos os males que afligem a humanidade desde muito tempo. Alguns, talvez, ironizem o fato de eu estar escrevendo sobre orações em um momento turbulento como o que nós vivemos atualmente no Brasil e no restante do planeta. Ocorre, minha gente, que se com orações/ rezas/ “benzeções” já está difícil enfrentar a situação, imagine sem elas! Não estou aqui a dizer que se resolve tudo com uma Ave-Maria ou um Pai-Nosso, mas ouso afirmar que conheci muitas pessoas pela vida afora que acreditavam apenas em que nada acreditavam. Sempre tive a impressão de que essas pessoas, não crentes, carregam consigo certo cinismo diante da vida, uma visão demasiadamente materialista e niilista de tudo a sua volta. Não as julgo e nem me compadeço delas, apenas observo e reflito sobre a ausência da fé, seja no que for. Para mim, que sempre convivi com católicos, protestantes, muçulmanos, budistas, praticantes de candomblé e da umbanda, além de pajés/ xamãs indígenas e benzedores/ rezadores ao longo da vida, rezar/ orar sempre teve uma importância fundamental: a de combater o mal, aquele que não entra pela boca do Homem, mas que sai e fere, machuca, mata... Meu avô (postiço) Marino, a quem chamávamos carinhosamente de “Vô Somário”, um homem alto, negro, magro, de semblante sempre sereno, me ensinou que enquanto proferirmos palavras de bendição e afeto será possível transformarmos tudo, absolutamente tudo o que está a nossa volta. Não, caros leitores, as orações por si só nada fazem, nada transformam. Contudo, trazem paz e tranquilidade a corações aflitos, seja por qual motivo for: morte, doença, crise, golpe, etc. Não nos esqueçamos que, desde que homens e mulheres habitavam cavernas, já houve a necessidade de conexão com algo que está para além da matéria de que somos feitos. Definir a fé? Explicar por que ao fazer orações nosso corpo reage a determinadas situações de maneira positiva? Entender o que senti ao me banhar recentemente nas águas da fonte de Lourdes, França ou ao adentrar a catedral do Santo Sudário, em Turim, Itália? Melhor não, pois para mim basta apenas sentir/ vivenciar e tocar em frente. Que assim seja! Axé! Namastê! Insha’Allah! Aleluia!

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