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Giovani José da Silva

HISTÓRIAS DE ADMIRAR: PARALELAS

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A morte do cantor Belchior, ocorrida recentemente, (re)acendeu algumas polêmicas a respeito da vida privada de figuras públicas. Notícias diversas deram conta de que o artista seria um pai ausente, além de caloteiro e mal pagador. Para piorar, parece que devia pensão aos filhos, o que o tornaria uma pessoa execrável. Sim, eu concordo com muito do que li a respeito de que “desde os primórdios” aos homens é permitido (quase) tudo e às mulheres (quase) nada. Os erros de Belchior, então, seriam “perdoados” em nome da genialidade de suas letras e melodias, o que não ocorreria caso ele fosse uma mulher. Gostaria, pois, de expressar uma opinião para contribuir ao debate sobre a questão. É possível separar a vida privada da vida pública de uma pessoa que tem fama ou faz sucesso, considerada ídolo por muitos? Alguns diriam “não!”, afinal o artista que decidiu expor-se deve acarretar com as consequências, inclusive pessoais, de tal exposição. Me atrevo a dizer que continuarei a apreciar a obra de Belchior, por tudo o que ela me trouxe, desde criança, em termos de beleza, reflexão e crítica, mas não só por isso. O artista tinha talento, além de grande sensibilidade para retratar como ninguém os conturbados anos 70 no Brasil, década em que nasci! Estaria eu defendendo sua memória, portanto? Não se trata exatamente disso, caros leitores. Ocorre que penso ser qualquer artista um trabalhador e alguns, como Belchior, me pareciam exímios em seu ofício. Em outras palavras, o autor de “Paralelas”, a música de que mais gosto de seu vasto repertório, era um “artesão” de palavras e sons e traduzia, de forma poética e cortante, sentimentos humanos comuns a todos. Ele transformava o ordinário em extraordinário. Quem mais poderia retratar de maneira tão visceral a solidão e a partida da pessoa amada, em versos como “E as borboletas do que fui pousam demais, por entre as flores do asfalto em que tu vais”? Me parece que muitos se regozijam ao saber de algum “podre” desta ou daquela pessoa famosa ou de sucesso, aparentemente gente boa, etc. Agora sabemos que Belchior, por exemplo, era um mentiroso contumaz: mentia sobre o seu verdadeiro nome completo, sobre o número de irmãos e, sabe-se lá Deus, sobre o que mais. Confesso que nada disso me interessa, verdadeiramente. Ainda que lamente (com sinceridade!) que os filhos do artista teriam sido relegados a um segundo/ terceiro plano e que ele não teria cumprido com suas obrigações de pai, além de outras, não posso deixar de comparar a situação com a de um antigo dentista, por exemplo. Mesmo não sendo uma figura (tão) pública como Belchior, meu dentista era conhecido por muita gente. Quando estava, literalmente, de boca aberta diante dele, não ficava imaginando se ele batia na esposa ou se cometia algum tipo de vileza no dia a dia. Naquele momento em que ele estava executando o serviço para o qual talvez tenha se preparado uma vida, desejava somente que fizesse um trabalho bem feito. A analogia aqui é com a obra de Belchior, já que esse era o trabalho do “cantautor”: escrever letras, cantá-las, divulgar ideias e sentimentos ao mundo. Claro que se eu fosse filho dele e tivesse mágoas não teria a mesma postura, muito menos se o dito cujo tivesse me dado um calote ou deixado uma dívida enorme em meu nome. Estou aqui tentando pensar que um artista da qualidade superlativa de Belchior não pode e nem deve ser julgado pelas suas pequenezas que, aliás, todos temos (embora muitos finjam que não). Não há desculpas para o abandono de filhos, pois é errado, antiético e chega a ser imoral. Tampouco deve haver desculpas para calotes e dívidas. Paga-se o que se deve! O que ocorre é que pessoas púbicas tem sim, em minha humilde opinião, o direito a ter uma vida privada, preservada dos olhares acusatórios e inquisidores que a maioria de nós faz. A menos que se descubra um dia que ele não é autor de “Mucuripe” ou de qualquer outra canção que leva seu nome, sua marca tão contundente, que tudo não passou de cópia/ plágio, continuarei a admirar sua obra e o artista, não o homem. E espero, sinceramente, que meu antigo dentista não bata na esposa ou pratique qualquer tipo de violência contra quem quer que seja. Nesse e em outros casos, é saudável perceber que não se tratam de vidas “paralelas” de uma mesma pessoa, mas distintas facetas de um ser humano – o lado sombra e o lado luz – que, como todos, incluindo eu e você, é capaz de realizações admiráveis e, também, de tristes mazelas e malfeitos.

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