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Giovani José da Silva

HISTÓRIAS DE ADMIRAR: VENTOS DE MAIO

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Maio chegou trazendo seus ventos e algumas boas lembranças a este “coração selvagem” que insiste em escrever mais o que sente e menos aquilo que pensa. “Vento de raio, rainha de maio, estrela cadente”. Os versos da canção de Lô Borges, especialmente na voz de Elis Regina, ecoam em minhas memórias, lembrando que “quase que eu me esqueci que o tempo não para, nem vai esperar”. Há 45 anos minha mãe se preparava, vestida de preto, para se despedir daquela que a criara como se fosse filha, embora fosse sua neta, na fronteira do Brasil com o Paraguai. Dona Evangelista Florentín Torres, ou Dona Vangé, como a chamavam em Porto Murtinho, partiu em um 10 de maio, deixando seus muitos filhos, dentre eles minha mãe, envoltos em manto de tristeza, pranto e luto. Eu estava lá, no ventre de Dona Gregoria, prestes a descobrir o mundo e iniciar a minha jornada de fé e de perdas, de esperanças, glórias e solidão. No “mês das noivas”, também, houve o casamento de meus pais, João e Kita (o apelido de minha mãe, que gostava de saborear as chipas “chiquitas”, quando menina), ocorrido em um, agora longínquo, 28 de maio. Eu não estava lá fisicamente, pois ainda habitava o mundo dos sonhos, aguardando que as sementes de João fecundassem o campo/ corpo de Gregoria, em ato de amor, tesão e paixão. Em um 23 de maio nasceu meu filho/ sobrinho/ afilhado, João Pedro, menino a quem amo e que, assim como seu irmão Diego Luís (in memoriam), considero um dos melhores presentes oferecidos por minha irmã mais velha, Giani, a mim e ao mundo. Enfim, muitos motivos para celebrar o mês que chega trazendo ventos frios que anunciam o inverno próximo: nascimentos, mortes, uniões: a Vida! Alguns que leem meus textos talvez pensem: “Esse Giovani não tem jeito: o país ‘pegando fogo’ e ele escrevendo sobre a família dele”. Pode ser que eu não tenha jeito mesmo, caros leitores, mas o fato é que rememorar para mim tem significados muito importantes em tempos como os que estamos vivendo. Significa, por exemplo, prestar mais atenção nos lugares de onde vim, onde me encontro e para onde quero ir. Significa, também, um reencontro com meus mortos, vivos para sempre na lembrança e no carinho que devoto a eles. É também a chance de refletir sobre erros cometidos, transformando dor e culpa em perdão e redenção. Sim, meus caros, não está fácil para ninguém. Contudo, em um país sem memória, que despreza tanto o passado, seja recente ou remoto, que nega ser racista, dificilmente seus habitantes saberão o que foram, onde se encontram e, até mesmo, para onde desejam ir. Seguir em frente apenas não basta: precisamos olhar para trás de quando em quando, sem medo de nos transformarmos em estátuas de sal (como a mulher de Lot), reverenciando nossos antepassados, buscando cometer apenas novos erros, deixando os tempos pretéritos onde devem estar/ ficar, sem reavivar hidras ou ciclopes. A velha roupa colorida que não nos serve mais será despida e colocada em um precioso relicário de memórias, como bandeira a ser desfraldada no dia em que finalmente nos erguermos como sociedade justa e igualitária. Minhas memórias, as de família, compõem o que sou, o homem que me tornei, nem preto, nem branco, com alguns tons acinzentados. Não esquecer, não esquecer. Porém, “não te maltrates, nem tentes voltar o que não tem mais vez”. Assim estou fazendo, tentando fazer, alguns dias com mais sucesso, outros nem tanto. No próximo mês completarei 45 anos de existência, o tempo de não existência física de minha avó Vangé. Sinto saudades dela, a quem não conheci, a não ser por meio das lembranças de minha mãe e sinto muitas, muitas saudades de meu pai, a quem todos os dias reencontro quando me olho em um espelho qualquer. Preciso de todos os sentimentos do mundo em meu relicário particular para continuar a caminhada na estrada da vida, muitas vezes tomada pelo mato e encharcada por água de chuva. “Assim meu sapato, coberto de barro, apenas para não parar, nem voltar atrás”.

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