Giovani José da Silva
Publicado em 02/08/2017 às 13:02
Atualizado em 10/09/2026 às 14:04
Entre 24 e 28 de julho estive em Brasília, para participar do XXIX Simpósio Nacional de História, evento organizado bianualmente pela Anpuh (Associação Nacional de História). Ao longo dos últimos quinze anos participei de sete, dos oito simpósios ocorridos no período: João Pessoa, PB, 2003 (História, acontecimento e narrativa); Londrina, PR, 2005 (Guerra e Paz); São Leopoldo, RS, 2007 (História e multidisciplinaridade: territórios e deslocamentos); Fortaleza, CE, 2009 (História e Ética); São Paulo, SP, 2011 (Anpuh: 50 anos); Natal, RN, 2013 (Conhecimento histórico e diálogo social); Florianópolis, SC, 2015 (Lugares dos historiadores: velhos e novos desafios); Brasília, DF, 2017 (Contra os preconceitos: História e Democracia). Não pude ir ao encontro de Natal, mais preocupado que estava com minha mudança de Mato Grosso do Sul para o Amapá e minha entrada na Unifap (Universidade Federal do Amapá). Em todos os certames, com exceção do realizado em João Pessoa, participei dos simpósios sobre História Indígena. Explico: tive um trabalho tão mal recebido em meio aos pesquisadores do Ensino de História, com uma chuva de críticas ácidas, além de um lembrete de que aquele não era espaço para “relatos de experiências” (para isso existiria evento específico, me alertaram ironicamente), que decidi ter sido aquela a primeira e a última vez que me apresentaria em simpósio sobre Ensino em encontros da Anpuh. Em 2005, 2007, 2009 e 2011 tive o privilégio de debater com colegas sobre o protagonismo indígena na História, capitaneados pelo saudoso John Manuel Monteiro, sobre quem já escrevi para esta coluna. Em 2013, ano da passagem de John, não tinha clima nem para enviar trabalho para o evento, além das mudanças que me fizeram ir para longe de Mato Grosso do Sul, nem para me fazer presente ao Simpósio. No retorno, em 2015, houve um reencontro com a presença/ ausência do mestre: estávamos todos lá, meio órfãos, ainda impactados pelo desaparecimento precoce daquele que tanto nos ensinara! Agora, em Brasília, capital do país, em tempos difíceis para todos, especialmente historiadores/ professores, os temas de combate aos preconceitos e de defesa da democracia são pertinentes e urgentemente necessários! Como explicar aos alunos e à sociedade em geral a guinada à direita ocorrida no país, com as lentes da História? Como explicar a nós mesmos, professores e pesquisadores de História, o quanto falhamos terrivelmente na formação de crianças, adolescentes, jovens e adultos para a cidadania plena e o respeito às diferenças? Sinto falta de autocrítica coletiva, como se nós não tivéssemos contribuído, de alguma forma, para o atual estado de coisas. Se meu aluno/ ex-aluno/ vizinho/ parente defende ideias e ações racistas, homofóbicas, misóginas, machistas, etc., antes de xingá-lo/ ofendê-lo (e encerrar, definitivamente, qualquer tentativa de diálogo), seria importante/ interessante que tentássemos (pelo menos tentássemos) o diálogo e, mais do que isso, não rebaixar (também) o nível dos debates/ discussões. Nos comportamos como se tudo estivesse ótimo antes, mas esquecemos da principal lição que nosso ofício pode nos ensinar: somos homens e mulheres no tempo, que é o tempo histórico. Sendo assim, vivemos o tempo que construímos e que foi construído pelos que nos precederam. Como desejar que uma sociedade que há pouco menos de 130 anos ainda vivia os horrores da escravidão, tão desigual como a nossa, possa magicamente transformar-se em um país democrático e justo, de fato? Como uma escola pensada, sobretudo a partir do século XIX, para os filhos das elites políticas e econômicas, pode ser uma escola que construa autonomia de pensamentos e ações para todos e não apenas para alguns privilegiados? Como superar o divórcio que separa o mundo acadêmico e a Educação Básica, em um país que necessita tanto se repensar, se refazer, construir-se? Muitas perguntas, diversas dúvidas e, por enquanto, apenas uma certeza: o encontro em Recife, daqui a dois anos, cujo tema será História e Educação, promete!
Giovani José da Silva
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