Giovani José da Silva
Publicado em 25/11/2017 às 22:18
Atualizado em 10/09/2026 às 14:04
E chegamos ao centésimo texto da coluna Histórias de admirar! Mal poderia eu imaginar que o convite feito pelo amigo (e ex-aluno) Rhobson Tavares Lima, em um dia de primavera na casa dos professores Arnaldo e Vilma Begossi, iria me trazer tantas alegrias e satisfação. Desde o primeiro artigo, intitulado Histórias de admirar: o início de uma jornada (19/11/2013), até este centésimo, procurei escrever sobre meus sentimentos e sobre pessoas, lugares e acontecimentos que considero importantes para a pessoa que sou/ me tornei. Invariavelmente, até pelo ofício que escolhi exercer, o de professor de História (que em algum momento já foi eleito o melhor da escola pública do Brasil), revejo que os textos escritos para a coluna falam do passado. Tenho buscado compreender, por meio de sessões de terapia realizadas em Macapá, que preciso me libertar das dores, das frustrações e do que poderia ter sido, mas não foi, e viver o tempo presente, o único em que realmente posso agir. Ocorre que é no passado em que estão algumas de minhas melhores lembranças, alguns dos momentos mais significativos para aquele menino que neste ano que logo se encerrará tornou-se órfão de pai pela segunda vez... Como posso esquecer o cheiro da loção pós-barbear de “seo” João, o jeito meticuloso com que fazia a barba (um verdadeiro ritual, tal como faço hoje em dia!) e me olhava do alto de seus mais de 1,90m (um verdadeiro gigante, em minhas lembranças)? Como não recordar as loucas travessuras que fazíamos juntos, eu montado em seu “cangote”, fazendo dele, meu pai, também meu “cavalinho”? É possível “deslembrar” o professor Arnaldo e suas tiradas irônicas, envolvidas em fumaça de cachimbo, aos pés da escada que dava acesso ao segundo andar do antigo prédio do CeUA? Não, caros leitores, o passado existe/ existiu e merece ser celebrado sempre que possível, pois afinal nos fez, nos construiu como gentes. Ocorre que lá atrás também estão as lágrimas do choro contido, os olhos de menino assustado que não compreendia como seus avós paternos podiam expulsá-lo da própria casa, deixando a todos, o menino e sua família, sem eira e nem beira. Lá estão também a amargura e a solidão de não encontrar na avó materna, nem nos muitos parentes de sua mãe, um apoio, um gesto de solidariedade, um carinho... Cresci assim, carregando um enorme fardo, tal como a personagem de Robert de Niro em A missão (The mission, 1986), envolto em sombras do passado, com raiva por meu pai nos ter abandonado nas mãos daqueles que, em minha cabeça e meu coração infantis, deveriam nos abrigar, proteger, amar. Eles não tinham condições disso, agora sei. Da mesma forma que agora sei também que minha mãe e minhas irmãs, cada qual do seu jeito, tentou sobreviver ao drama familiar que não era só meu, mas que eu sentia como se fosse. Eu era o único homem da casa, sobrevivente de uma infância estilhaçada, marcada por muito trabalho e por promessas quebradas: a enciclopédia, ao invés de brinquedos, que nunca foi comprada; o retorno de meu pai (que eu intuía, não estava apenas dormindo, naquele triste dia de outono que igualmente parecia coberto por uma mortalha). Não posso modificar o passado, nem as reações que tive, muito menos as das pessoas que me feriram, me machucaram, me abandonaram. Posso, sim, olhar para trás e acertar contas comigo mesmo, pegando aquele menino magricela pelas mãos, dizendo a ele que tudo passou/ passa e que agora temos, ainda, uma longa (?) jornada pela frente, desta vez sem Arnaldo, sem João, sem Durila, sem Dominguinhos, mas, se eu permitir, com um Giovani mais inteiro, mais forte e com todos os meus mortos presentes/ vivos em meu coração e na memória. O passado não tem o poder de nos derrotar, de nos amarrar, mas nós, caros leitores, cada um de nós, os que compõem a sua própria história e que carregam em si o dom de ser capaz e de ser feliz, podemos soltar as amarras que nos prendem aos tempos pretéritos e caminhar sem tantos pesos, sem tantos fardos. Agradecido por tudo, pelos bons e maus momentos/ sentimentos, pelas boas e más pessoas encontradas em meio à jornada, celebro o centésimo texto de Histórias de admirar! Que venham outros tantos!
Giovani José da Silva
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