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Giovani José da Silva

HISTÓRIAS DE ADMIRAR: SOBREVIVÊNCIAS

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            Então é Natal... E o que você fez? Eu diria que sobrevivi! Sim, caros leitores, sobrevivi a mais um Natal, tentando dormir enquanto a rua da casa de minha mãe, na periferia da Grande São Paulo, era transformada em baile funk, uma espécie de sucursal do inferno! Mas não quero incomodá-los com o pesadelo que foi a noite de Natal: desejo falar sobre outras sobrevivências. Desde que me conheço por gente, o Natal, ou melhor, a véspera, sempre significou o aniversário de minha mãe, dona Gregoria. Nesse ano ela completou 71 verões, bem vividos, também marcados por inúmeras sobrevivências. E a que sobrevivemos? Por exemplo, à maledicência das pessoas em volta, especialmente de parentes que em época de festas de fim de ano parecem se esquecer de todos os malfeitos praticados, todas as palavras duras proferidas, todas as mazelas cometidas no passado e se dedicam a enviar mensagens de paz e amor! No meu caso, a colegas (sim, porque amigos não fazem tais diatribes) que não fazem outra coisa a não ser te espezinhar o ano inteiro e são tomados pelo tal “espírito natalino” e ao invés de impropérios e de indiretas, destilados a esmo feito veneno de cobra peçonhenta, enviam gifs “fofas” ou alguma citação (que nunca é) de Clarice Lispector ou de algum outro escritor da moda facebookiana ou whatsappiana... O melhor de tudo é sobreviver ao desamor. Há quem pense que o contrário do amor é o ódio, mas eu não acredito nisso, assim como jamais acreditei na existência do “bom velhinho” e nem em quem se comporta como animal rastejante durante uma vida e se diz transformado, de uma hora para outra, pelo repique dos sinos de Belém. O desamor é a ausência de amor, a falta dele ou a sentida presença da ausência do sentimento que deveria mover a todos. – Vamos nos encontrar? Hoje não posso, tampouco na próxima semana, já que estou ocupado(a) demais para tais eventos (quem sabe em outra vida, então...). – Puxa, você não aparece mais lá em casa (e eu com vontade de perguntar porque nunca foi à minha, desde sempre de portas abertas para receber a pessoa reclamona). Sou um sobrevivente! Sobrevivi às perdas; ao adeus que não pôde ser dado, impedido pela estupidez e pela covardia; à partida voluntária dos que disseram que me amavam, mas que não queriam mais compartilhar a vida ao meu lado (oi?). Sobrevivi, também, à mediocridade, há tempos instaladas em todos os rincões de nosso imenso país, em um acordo tácito entre pessoas que dizem umas às outras (às vezes com um olhar, às vezes aos cochichos) que em caso de naufrágio (ou de descarrilamento) os ratos/ as ratazanas se unirão para serem os primeiros a abandonar o navio (ou trem) desgovernado. Sobreviver é uma arte e me sinto um homem afortunado por ter chegado até aqui, quase ao meio século de vida, tentando manter-me digno em meio à hipocrisia reinante. Não, caros leitores, não sou perfeito e creio estar bem longe da perfeição, que não é própria da condição humana, em minha humilde opinião! Ocorre que já menti, mas nunca tentei prejudicar a ninguém. Já fui arrogante, mas aprendi, especialmente com meus alunos, que o peso das palavras e das atitudes precisa ser medido, pois pode se transformar em fardo extenuante a ser carregado por uma vida inteira. Já disse e fiz coisas reprováveis, mas soube admitir e pedir desculpas/ perdão. Há quem pense que isso é frouxidão, mas penso que apesar das evidências em contrário os sobreviventes a esse mundão que parece sem conserto serão os que sabem pedir “por favor”, que sabem dizer/ sentir “obrigado”, que sabem se reconciliar consigo mesmo e, portanto, com quem está à volta. Serão, também, os que imaginam um mundo para todos e não apenas para quem pensa como eu, para quem vota em meus candidatos, para os meus, somente, sejam parentes, amigos ou comparsas. Nossa redenção está no amor, que é mais do que palavras bonitas colocadas às pressas em algum cartão barato ou mensagens enviadas burocraticamente (em que se pede, inclusive, que sejam devolvidas ao remetente!). O amor é atitude, é colocar-se firmemente no lugar do outro, é perceber que se a farinha é pouca (nada de “meu pirão, primeiro, hein!), todos deverão ser alimentados por igual, com pouco! Foi assim que sobrevivemos: com pouco, mas repartido igualmente. A isso dá-se o nome de inteligência emocional. Eu prefiro chamar de “sobrevivência emocional”...

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