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Giovani José da Silva

HISTÓRIAS DE ADMIRAR: MINHAS FÉRIAS (2)

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          Voltei a Mato Grosso do Sul a fim de me reencontrar com o passado e, quem sabe, encontrar-me nos tempos presente e futuro. Passei por inúmeros municípios sul-mato-grossenses, aproveitando que estava viajando em automóvel (Três Lagoas, Água Clara, Ribas do Rio Pardo, Campo Grande, Terenos, Dois Irmãos do Buriti, Anastácio, Aquidauana, Miranda, Bodoquena, Porto Murtinho, Nioaque, Guia Lopes da Laguna, Jardim, Bela Vista, Caracol, Antônio João, Ponta Porã, Amambai, Caarapó, Dourados, Douradina, Rio Brilhante, Nova Alvorada do Sul...). Ufa! Além de me encontrar com indígenas Kadiwéu e Atikum, tive o imenso prazer de abrir o ano letivo na UEMS – Amambai, a convite da querida amiga Suzana Arakaki, onde falei para uma atenta e interessada plateia formada por indígenas Guarani/ Kayowá, além de não indígenas, estudantes e professores. Com os Kadiwéu pude dar continuidade ao projeto do Cursinho Pré-vestibular/ ENEM e junto aos Atikum acompanhei as importantes decisões tomadas pelo grupo em relação ao futuro próximo e ao próprio destino! Como foi bom trabalhar com História e Literatura, lendo/ relendo O cortiço, de Aluísio Azevedo, tratando do período pós-abolição e da urbanização da então capital do país, o Rio de Janeiro, no início do século XX! Em Nioaque, pude rever os “caboclos da Serra do Umã” e reafirmar meu compromisso de sempre apoiá-los em suas decisões. Há quase 20 anos faço isso! Contudo, não estive sozinho durante as viagens, pois contei com a presença de verdadeiros “anjos da guarda” ao longo do caminho! Em Aquidauana, em rápida passagem, procurei informações sobre a última morada de certo professor a quem amei/ amo como um filho ama o pai. Não tendo encontrado, decidi que voltaria algum dia com tudo aquilo que prometera não levar jamais até ele: velas, flores e lágrimas (de saudades e de emoção!). O tema da morte e dos cemitérios rondou as minhas férias desta vez: ao chegar aos Kadiwéu, por exemplo, encontrei duas famílias em luto, pranteando aqueles que foram habitar a terra dos sonhos, a aldeia da memória, um deles meu “parente”. Em Nioaque, os Atikum também se encontravam envoltos em momento de despedidas de um dos seus. Fiquei pensando como é difícil sobreviver a tantas partidas e continuar firme a caminhada, ainda que muitas vezes me sentindo solitário. O tempo passou para mim e para os indígenas a quem dediquei boa parte de minha vida, caros leitores. Impossível não imaginar como será daqui a algum tempo, em que os que agora encontram-se idosos (e outros, ainda, muito jovens) terão desaparecido fisicamente, passando a morar nas lembranças de tempos vividos. Tantas andanças por Mato Grosso do Sul me fizeram perceber o quanto apesar de ter saído do Estado há quase cinco anos, as gentes e paisagens sul-mato-grossenses jamais me deixaram. Aqui me tornei homem adulto, com coração de menino, encontrei um pai e dele me tornei órfão (pela segunda vez!). No Pantanal encontrei mais do que vidas e histórias indígenas e não indígenas extraordinárias: encontrei a mim mesmo, tornei-me o “Oyatogoteloco” dos Kadiwéu, o “tropologista/ tropóligui” dos Atikum, o “mestre” dos Kamba, o Professor Giovani dos Kinikinau e de tantos outros! Arrependimentos? Nenhum, nem mesmo o de abrir mão das férias da Universidade Federal do Amapá e vir para cá estudar e trabalhar. Tudo isso alimenta minha alma, meu espírito irrequieto, fazendo parte de uma sina, de um caminho traçado há tempos por mim e pelos espíritos ancestrais. Sim, caros leitores, o cientista, o professor premiado que me tornei após tantos anos de estudos e pesquisas, acredita também na existência de mundos para além do que os nossos olhos veem. Como poderia ser cético depois de tanto tempo convivendo com pajés/ xamãs/ rezadores/ parteiras/ benzedeiras? Em minhas férias os mundos material e imaterial/ espiritual que me cercam se encontram e conversam, trazendo-me importantes lições. Se alguém achar que dessa forma não se descansa, ouso afirmar que não vim a este mundo a passeio, a não ser que este passeio seja pelas estradas de Mato Grosso do Sul. Ah, minhas férias!

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