Giovani José da Silva
Publicado em 29/03/2018 às 11:50
Atualizado em 10/09/2026 às 14:04
Não gostaria de escrever um obituário do senhor Aliano José Vicente, líder dos Atikum em Mato Grosso do Sul, povo que me ensinou as artes e o ofício do antropólogo. Retomo um texto publicado em O Pantaneiro em 31/12/2013. Para mim, "seo" Aliano, agora se tornou um "encantado" ou, como dizem os "caboclos da Serra do Umã", um "encanto de luz! Siga em paz, meu amigo e mestre. A sua benção!
"Ele tem a pele negra, o cabelo escuro (com muitos fios brancos, é verdade!), o sotaque marcadamente nordestino e hoje vive em Nioaque, em terras dos índios Terena. Embora a aparência física remeta à ideia de que se trata de um remanescente de quilombo, Aliano José Vicente sabe que é índio e, mais do que isso, afirma com orgulho para quem estiver disposto a ouvi-lo e conhecê-lo: é índio Atikum, 'caboclo da Serra do Umã'. Eu o conheci em fins de 1999, enquanto realizava estudos de Especialização em Antropologia, pela UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso), em Cuiabá. O curso estava chegando ao fim e eu precisava me decidir sobre o 'objeto de estudo' que serviria de referência para a elaboração da monografia. Nessa época já convivia com os Kadiwéu de Porto Murtinho e todos os meus colegas de curso, inclusive minha orientadora, a Profª. Drª. Joana Aparecida Fernandes Silva, apostavam que eu escreveria sobre os "índios cavaleiros". Como havia aprendido que a primeira tarefa de todo antropólogo é deslocar-se do que lhe é familiar, estranhando e procurando compreender o Outro, decidi ir à raiz dessa tarefa e lembrei-me das minhas incursões por terras Terena enquanto aluno de graduação em Aquidauana. Eu tivera notícias entre 1991 e 1995 que viviam alguns 'terra seca' entre os índios Terena de Nioaque e ficara curioso por saber quem eram aquelas pessoas. Daí resultou o encontro com um homem de fala calma, de uma sabedoria ímpar e que me acolheu com a hospitalidade que é peculiar ao seu povo. Os Atikum, ou 'caboclos da Serra do Umã' como gostam de serem chamados, vivem em Pernambuco e nas últimas décadas empreenderam uma verdadeira 'diáspora', espalhando-se por diversos Estados brasileiros, inclusive Mato Grosso do Sul. Em Nioaque, Aliano e seus familiares e parentes vivem há pelo menos três décadas, aguardando com ansiedade a definição de uma porção de terras para que possam reproduzir-se física e culturalmente. 'Seo' Aliano sabe esperar, ainda que hoje diga estar cansado de tantas 'pelejas' para ver os Atikum viverem em uma terra que lhes seja própria. A alcunha 'terra seca', apelido pejorativo que remete ao local de origem dos 'caboclos' e dado pelos que o cercam, não lhe ofende: sempre me disse que o mais importante é se saber quem é e de onde veio. Com este homem e seu povo, a quem dedico respeito e admiração, aprendi muito mais do que Antropologia, pois eles jamais foram 'objetos de estudo' e sim agentes de uma história bonita, e por vezes triste, que eu ajudei a por no papel e do qual sinto-me muito honrado por tê-lo feito. Em outra oportunidade contarei mais sobre 'histórias de admirar' vividas em conjunto com este homem e os demais 'caboclos'."
Giovani José da Silva
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