Giovani José da Silva
Publicado em 22/04/2018 às 13:07
Atualizado em 10/09/2026 às 14:04
Desde o último texto publicado na coluna venho me perguntando, com mais frequência, porque temos tanta dificuldade em reconhecer os próprios erros, “dar a mão à palmatória”, corrigir e tocar em frente! Presenciei esta semana (mais) uma cena em que certa professora indignada se disse cansada de ouvir que a “culpa” pelo fracasso de nossa Educação é dos professores, que ela já atua há tempos e que procura fazer sempre o melhor... Pois é, caros leitores, tenho ouvido muita fala semelhante pelos rincões por onde ando neste imenso Brasil e me questiono o seguinte: se tanta gente está fazendo o seu melhor nas salas de aula, se há tantos professores dedicados, da Educação Básica ao Ensino Superior, por que é a coisa anda tão ruim e não é de hoje? Algumas pistas: professores avaliam seus alunos, muitas vezes sem ter noção alguma do que seja a verificação dos processos de ensino e de aprendizagem (não, não estamos falando de questionários de 50 perguntas em que 10 perguntas serão selecionadas para a prova!), mas não gostam de ser avaliados, questionados em suas práticas pedagógicas; professores (muitos) ainda acreditam que precisam saber muitos conteúdos, do tipo “o modo de vida dos servos e senhores na Idade Média europeia”, porém não fazem a mínima ideia de como se ensina isso a uma criança ou a um jovem estudante da Educação Básica; professores pensam que mandar abrir um livro didático em tal página e oferecer aos alunos uma aula verborrágica, enfadonha em que se lê (mal) e se escreve (pior ainda) é a solução para os problemas educacionais; finalmente, professores leem pouco e o pouco que leem não lhes traz erudição, pois, vejam, caros leitores, um de nossos campeões de vendas de livros sobre a escola no Brasil é justamente alguém que tem pouca (ou nenhuma) experiência no “chão da escola”, especialmente a pública! Claro que sei que um “batalhão” de professores irados com meu texto, do baixo ao alto “clero” (sim, temos essas divisões internas, apenas não as explicitamos publicamente: professores que dão aulas na Educação Básica e os seres “superiores” que ministram aulas no... Ensino “Superior”) irão replicar mil motivos para explicar como chegamos a esse nível de mediocridade reinante: a carga horária excessiva a que se submetem muitos trabalhadores da Educação, os baixos salários, as condições precárias/ precaríssimas em que se encontram as escolas brasileiras, os poucos investimentos em Educação no Brasil e, em última instância, o sistema econômico capitalista que impede que sejamos, de fato, senhores de nossos destinos... A esses argumentos poderíamos acrescentar muitos outros, ainda: a pressão de coordenadores pedagógicos para que a burocracia continue a governar as escolas (já preencheram os diários, os relatórios, as listas?), o descaso com que pais e comunidades em geral tratam a escola, o pouco tempo que o professor tem para preparar suas aulas. Eu, humildemente, incluiria mais um item a essa interminável lista: autocrítica! Como penso que ela nos faz falta em tempos tão sombrios. Em nome de uma suposta “autonomia” do professor (“quem manda em minha sala de aula sou eu”) faz-se o que se bem entende, muitas vezes negligenciando-se a formação dos estudantes, seja em que etapa estiverem de sua formação. Professores de Norte a Sul, de Leste a Oeste do Brasil deveriam ser convidados a refletir coletivamente sobre suas práticas e seus saberes, verificando em que poderiam melhorar, o que poderiam aperfeiçoar, a fim de que atingissem os objetivos a que se propõem: educar pessoas. Vivemos em um país de gentes muito mal-educadas e temos o feio costume de apontar o dedo em direção aos outros, na vã esperança de que nossas próprias mazelas não sejam descobertas/ criticadas. Enquanto cada um de nós estiver “fazendo a sua parte”, “dando o seu melhor”, sem autocrítica, penso que continuaremos a ranger os dentes, sem efeitos práticos no cotidiano das salas de aula de nosso país. Palavra de quem já entendeu que é preciso tomar mais cuidado com as palavras, de quem já foi muito arrogante ao demonstrar sua pretensa erudição aos outros, de quem já teve preguiça (e má vontade também) de dar uma aula melhor, de quem já se indignou com críticas sem ao menos refletir a respeito, mas que também não se furta a renovar, todos os dias, o compromisso de melhorar e buscar o melhor para os que estão a sua volta. Palavra de quem já foi escolhido o melhor professor da escola pública brasileira!
Giovani José da Silva
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