Giovani José da Silva
Giovani José da Silva
Publicado em 25/10/2018 às 12:48
Atualizado em 10/09/2026 às 14:04
Estamos a poucos dias das eleições para presidente da República e para (alguns) governadores de Estado em segundo turno no país. O saldo? Bastante negativo, especialmente se levarmos em conta as amizades desfeitas, os laços familiares rompidos, o medo e a insegurança instalados nos corações e mentes de brasileiros e brasileiras. “Eu sei de que lado estou!”, “Fascista!”, “Vermelho!” e outras palavras/ expressões usadas à exaustão mostram o quanto nos especializamos em derrubar pontes e construir muros entre nós. De repente, a Universidade “descobriu” que deve desempenhar algum papel relevante, como o de colocar suas pesquisas a serviço da sociedade que lhe sustenta e convoca a todos para assembleias e reuniões a respeito do buraco em que nos metemos, além, é claro, de emitir muitas cartas de repúdio. Colegas de trabalho, amigos recentes ou de longa data que não lhe dirigem a palavra cotidianamente (seja por qualquer razão) invadem as redes sociais para cobrar posicionamentos, a fim de que ninguém se agarre à “síndrome de Pôncio Pilatos” e diga, afinal, “de que lado você está?”. Se falo, não me posicionei contundentemente a respeito de H ou B. Se calo, estou sendo conivente com tudo o que está aí e, portanto, serei um dos responsáveis pela ascensão do “fascismo” ou do “lulopetismo”! Ora, caros leitores, não consigo ver o mundo (aliás, deve ser defeito congênito, nunca consegui!) de forma binária e, portanto, estreita: ou isto ou aquilo (evocando a bela obra de Cecília Meireles, de quem sou leitor voraz...). Empobrecendo a forma como vivemos e como compreendemos/ representamos a vida, perdemos tudo e não apenas a eleição. Me mantive calado na maior parte do tempo desse processo não por estar satisfeito com o mundo que me rodeia ou por ter aderido a ideias autoritárias/ totalitárias: estive exercendo um sentido que anda meio esquecido, quase apagado pelo mundo high tech que nos impede de ouvir nosso interior e aos outros: a escuta. Antes, preferimos falar, falar, falar e creio que isso se deve mais a uma tentativa desesperada de convencer a nós mesmos do que estamos dizendo/ vociferando do que a outros. Interessante observar que colegas professores que nunca (eu disse “nunca”) se mostraram preocupados com a escola pública, para a qual formam professores, agora estejam assustados com o fato de que há muita gente que lida com ideias/ conceitos/ noções, tais como fascismo e comunismo, de forma bastante equivocada. Pudera! Muitos de meus (ex-)alunos saem da Universidade pensando que são somente (e tão somente) pesquisadores, que ser professor de Educação Básica é algo menor, que o “barato” é fazer mestrado, doutorado, pós-doutorado e sei lá mais o quê para, finalmente (graças a Deus, a Alláh ou a outra entidade...), livrar-se de salas de aula superlotadas, fazer “pesquisas” e participar de congressos científicos em que se fala (quase sempre) para as mesmas pessoas, preferencialmente em linguagem hermética/ fechada, “proibida” a não iniciados. Assim, continuamos a construir muros, verdadeiros bunkers, para nos sentirmos ilusoriamente confortáveis, longe da miséria (material, intelectual, espiritual) que viceja em nossa sociedade. Enquanto não nos dispusermos a construir pontes e derrubar muros será o líder religioso, a vizinha fofoqueira ou a mensagem que chega ao telefone celular quem será a referência de muitos de nós. Aquele que escreve livros e artigos científicos (quando escreve) e torce o nariz para qualquer tentativa “didática/ pedagógica” de comunicação com um público mais amplo, esse continuará a ser lido por quase ninguém (incluindo sua própria mãe), mas estará satisfeito por estar “protegido” em sua “bolha acadêmica”. E não adianta ir à passeata em defesa dos direitos de quem quer que seja se não é capaz de ao encontrar um desafeto pelos corredores sequer cumprimentá-lo. Respeito é bom e todos gostam, mas precisamos ser mais que “pensadores” do bem: precisamos ser “fazedores” do bem. Agindo menos como consumidores/ consumidoras (condição a que fomos todos reduzidos, muitos sem se dar conta) e mais como cidadãos e cidadãs temos a chance, vença quem vencer as eleições do próximo domingo, de começar a quebrar os muros que fomos levantando há tempos... Construir as pontes necessárias para erguermos uma sociedade brasileira justa, igualitária e democrática poderá levar muito tempo, mas é tarefa urgente e mais que necessária e dispensa “mitos”, “messias” ou “salvadores da pátria”.
Giovani José da Silva
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