Giovani José da Silva
Valorize-se! Não deixe que nada e nem ninguém tirem você do prumo, te façam se sentir diminuído, seja lá por qual motivo for... Valorize-se, professor! Você, que estudou muito e se especializou em certos temas, como eu me especializei em Ensino de História e História Indígena, não permita que te façam trabalhar de graça... Eles precisam de você e, por isso, precisam saber, também, se achegar e te conquistar. Não, você não está o tempo todo fazendo nenhum favor aos outros, está sendo apenas correto e profissional. Simples assim. E como é difícil que entendam isso! Faço muitas palestras de graça, vou a eventos científicos e culturais em que mal me pagam a hospedagem, muitas vezes tiro dinheiro de meu próprio bolso (Passagens? Diárias? Somente para os amigos do rei/ da rainha de plantão...), mas quando faço isso é porque tenho interesse/ vontade/ disponibilidade. Recentemente gravei uma série de videoaulas para a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo (http://www.rededosaber.sp.gov.br/portais/Default.aspx?tabid=1249) sobre a temática indígena e não cobrei um tostão. Não fiz isso porque quero parecer um “cara legal”, mas porque, de alguma forma, desejo retribuir à escola pública paulista, em que estudei toda a Educação Básica, um pouco do muito que aprendi, seja em São Paulo, capital, Guarulhos ou Lorena. Sempre que volto à terra natal visito escolas, falo sobre as sociedades indígenas com as quais convivi e ainda convivo, procuro encantar as pessoas que me ouvem pelas palavras e pelos sentimentos. “Mas você bem que poderia aceitar fazer tais e tais trabalhos de forma voluntária, não é mesmo, Giovani?”. Não, não posso e sabe por quê? Porque “ralei” muito para ser o que me tornei, vivi oito anos em uma aldeia indígena lecionando, ganhei prêmios, me tornei gente grande. Isso tudo não me fez melhor do que ninguém, mas me tornou “senhor” de meu tempo e vontade, além de muito cuidadoso com o que falo/ faço em minha profissão. Sejamos mais profissionais, não permitindo que qualquer um (qualquer um mesmo!) diga que ministrar aulas (porque não “damos” aulas, a menos que sejam de graça, realmente...), especialmente de História, é fácil e que mesmo um não habilitado possa fazê-lo com competência (eu não me atrevo a ministrar aulas de quaisquer assuntos, então por que raios há aqueles que insistem em falar sobre a temática indígena sem conhecimento profundo, por exemplo?). Paremos de vender trufas, lingerie e seja lá mais o que vier à cabeça nas salas de professores, transformando um espaço que deveria respirar Educação em templos de vendilhões. Defendamos, com amor e ardor a nossa profissão, sem querer imputar à docência o que ela não é e (espero) nunca será: vocação, dom, missão. Não me sinto um predestinado para o magistério: me fiz professor, me construí dia após dia em salas de aula (urbanas, rurais, indígenas, etc.), li muito, me preparei para concursos, estudei (duas licenciaturas, um aperfeiçoamento, duas especializações, um mestrado, um doutorado e dois pós-doutorados) e continuo estudando (licenciatura em Teatro, na Universidade Federal do Amapá) e não vou permitir que ninguém me dirija a palavra para dizer que não esperava que eu só trabalhasse se houvesse “grana”. Sim, eu preciso receber pelo meu trabalho, seja lecionando, orientando alunos, ministrando palestras e conferências ou oferecendo oficinas e/ ou consultorias. Não vivo de luz e seria bom que me perguntassem, antes, se eu trabalharia em condições de precarização extrema da profissão, apenas por “amor à causa”. Como já expliquei, posso até fazer isso, mas daí preciso ser “paquerado”, “envolvido” pela proposta e não simplesmente tomado como um tolo que não sabe o seu lugar. Estou há dois anos em um Cursinho Pré-Vestibular/ ENEM para indígenas do Pantanal de Mato Grosso do Sul e somente tenho recebido a satisfação de ver indígenas rompendo as barreiras dos testes seletivos e adentrando faculdades/ universidades. Faço isso em meus períodos de férias/ afastamentos, com a colaboração de outros voluntários. Eu sei valorizar o trabalho de colegas de Norte a Sul do país, embora nem sempre perceba reciprocidade nas relações que estabeleço com uma gente que espera muito de você, mas se esquece da lição básica da Antropologia: dar, receber e retribuir...É assim que a “banda toca” comigo e é assim que eu gostaria que milhares de professores Brasil afora se comportassem, valorizando-se e não permitindo que outras profissões tenham mais prestígio social que a nossa, a mais bela e sublime de todas! Educar alguém não é fácil, imaginemos educar uma porção de gentes! Valorize-se!
Giovani José da Silva
Saúde
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