Giovani José da Silva
A semana que se encerrou ontem, sábado, dia 08 de dezembro, não foi das mais fáceis e felizes para mim... Explico: apesar de alguns anos de psicoterapia e de tratamentos terapêuticos complementares, ainda fico esperando que as pessoas a minha volta retribuam o que faço por/ com elas, sinalizando um mínimo de solidariedade e de respeito. Contudo, não tendo jeito, caros leitores, só posso dizer do misto de decepção e de sentimento de abandono que me acometem cada vez que eu espero alguma atitude de alguém e... nada! Há uma regra nas relações humanas, desvendada pela Antropologia, e que merece ser trazida aqui para a compreensão do texto desta semana em nossa coluna. Trata-se do dom ou da dádiva, como queiram chamar, e que consiste em uma situação aparente simples e banal – a relação de dar e receber. Ocorre que há um terceiro elemento para além do dar (presentear/ oferecer/ etc.) e do receber, que é o retribuir. Sim, meus caros, em toda relação em que alguém oferece algo a alguém, espera-se que aquele que recebeu saiba como receber e, mais do que isso, saiba também retribuir. Um sorriso, um “muito obrigado/ obrigada” já bastariam, mas quando o que recebeu não fala/ faz nada e age como se o outro tivesse a obrigação de fazê-lo, aí o “bicho pega”. Vivi uma história de muitas perdas e danos desde pequeno e gostaria apenas que as pessoas mais próximas tentassem se colocar por um instante em meu lugar. O que fariam vocês se seu pai tivesse partido quando ainda tinham menos de cinco anos e em seguida fossem expulsos de sua casa, perdendo praticamente todos os bens materiais que possuíam? E mais: o que fariam se as pessoas que tivessem feito isso com vocês fossem justamente aquelas que deveriam protegê-los e amá-los, os seus avós? Pois bem, isso aconteceu comigo há um bom tempo, mais de quarenta anos, e não, não estou aqui para “chorar pitangas”. Antes, gostaria de lhes dizer que as escolhas que fiz desde então tinham mais a ver com o que era bom para a minha família do que para mim e para satisfazer os meus próprios desejos. “– Você quer fazer Artes? Vai viver de que, depois de formado?”; “– Você conhece algum antropólogo? Sabe como eles ganham dinheiro?”; “– Criança não tem que querer, tem que obedecer!”. Estas e outras frases, ouvidas à exaustão, definiram os rumos que tomei (e dos quais não me arrependo nem por um instante). Ocorre que muitas dessas ideias ainda ecoam dentro de mim, me fazem ter medo de alçar novos e diferentes voos, mantendo-me refém de situações que me machucam, me ferem, me fazem sofrer. Há saídas para tal situação? Penso e sinto que sim... Em primeiro lugar, entre perdas, danos e ganhos (sim, houve muitos) preciso ter claro de que não posso retribuir ao mundo toda a maldade, o desrespeito e o abandono que já me ofereceram. Em segundo lugar, sinto que está na hora de parar com essa “espera de Godot”, de que as pessoas vão se tocar e retribuir o que faço por elas com atitudes de gratidão e não apenas com palavras ocas e, portanto, vazias. Por último (será mesmo?) e não menos importante: preciso me reinventar, re-existir, resistir bravamente e não sucumbir à tentação de “devolver na mesma moeda” o tratamento que me dispensam. Ultimamente tenho tentado me desintoxicar (sim, considero a universidade, de modo geral, um ambiente extremamente tóxico e insalubre) e me “livrar” de algumas pessoas, ainda que seja virtualmente. Não importa se é seu parente, de seu círculo de amizades ou seu colega de trabalho: se a pessoa só sabe receber e não dá ou retribui nada, melhor não manter a relação unilateral. Porque se tem uma coisa que o amor, o sublime amor, não seja, é revelar-se egoísta e manipulador. Então, fica a dica: se o seu colega de classe fez por você o trabalho que deveria ter feito também, se o seu irmão lhe empresta a casa dele para morar e não cobra aluguel de você, se o seu amigo verbaliza que alguém o machucou e que ele não está bem, mostre-se, ao menos, solidário, ao invés de ficar calado ou lançar palavras de “eu te amo” ao vento. Saber dar, receber e retribuir é o básico de qualquer relação humana. Ou pelo menos deveria ser...
Giovani José da Silva
Saúde
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