Giovani José da Silva
O que você, caro leitor, diria de uma mulher que nasceu em meio à guerra civil, foi criada em fronteiras (étnicas, nacionais, linguísticas, além de outras), aos 29 anos ficou viúva com três filhos pequenos (com 01, 03 e 09 anos de idade!), foi expulsa de sua própria casa, perdeu praticamente tudo (menos a dignidade) e se refez? Aliás, não apenas se refez como vem se refazendo continuamente e hoje completa 72 verões muito bem vividos. Eu a chamo de a “mais bela flor paraguaia”, embora seja brasileira de corpo e alma. Nunca a vi fazendo mal a ninguém, pelo contrário, já presenciei muita maldade que fizeram contra ela e os seus pequenos. Pensam que ela respondeu “à altura” contra as desventuras impostas por gentes sem coração e por circunstâncias desfavoráveis? Não... Eu demorei a compreendê-la, sei que lhe dei muito trabalho, pois não conseguia enxergar que ali estava alguém disposta a “limpar” (como ela mesmo diz sempre) os caminhos de seus descendentes, para que se livrassem do mal. Que vida extraordinária! Creio que não saberia lidar com tantos dissabores, tão jovem, e ainda dar a volta por cima. Uma mulher corajosa, que com pouco mais de 13 anos saiu do Pantanal do então Mato Grosso (hoje Mato Grosso do Sul) e foi enfrentar a vida na cidade grande, em São Paulo, capital. Ali trabalhou em “casas de família”, servindo aos outros e vislumbrando um presente e um futuro melhores. Em certa fábrica encontrou um jovem paulista, caipira de Sertãozinho, meio bronco (ah, eu tenho a quem puxar) e ao longo de quatro anos construiu uma relação que culminaria em noivado, casamento, o nascimento de três filhos. Em um dia nublado (sim, eu me lembro...), em fins de março de 1976, despediu-se de seu grande amor, prometendo-lhe devoção e um reencontro em algum tempo e espaço... A expulsão de casa, os objetos sendo levados (inclusive um automóvel), uma frase ríspida (“Vocês não fazem mais parte dessa família”) e lá estava ela, de pé, solitária, enlutada. Fomos morar em um porão, entre aviamentos de costura, agulhas, retroses e linhas. Costureira de mão cheia, soube alinhavar todos os retalhos, desfazendo nós, remendando dores, cosendo sonhos e esperanças. Quase nos deixou, por mais de uma vez, momentos em que pensei que iria parar em algum orfanato ou na casa de algum desalmado, o que me apavorava. Houve poucos (aliás, pouquíssimos) parentes, amigos, conhecidos que nos estendessem as mãos, que efetivamente dissessem e fizessem algo para que ela pudesse acreditar que tudo ficaria bem. E ficou, apesar de tudo e de todos! Seus longos cabelos brancos, seu jeito peculiar de falar (com sotaque, afinal ela domina três idiomas: Português, Guarani e Espanhol), sua “brabeza” são suas características mais evidentes. Eu a conheço muito bem e sei que ainda tenho muito a descobrir sobre ela e seus encantos e temores. Uma mulher incrível, extraordinariamente resiliente, fervorosamente religiosa, adoravelmente “turrona”. Haverá o dia em que me despedirei dela (assim espero, pois não sei se ela suportaria despedir-se de um de seus rebentos), agradecido por ter sido seu filho, seu amigo e, especialmente, fruto de seu amor pelo caipira de Sertãozinho. Gregoria Ramona Torres (Silva, depois do casamento), a Kita (como a chamam em casa, por causa de sua predileção pelas chipas “chiquitas” na infância), minha mãe: neste 24 de dezembro, véspera de Natal, renovo os meus votos de que sua vida continue fabulosamente extraordinária, nada comum, que as bênçãos do Criador recaiam sobre a senhora, que continue a envelhecer com dignidade e honra. Sua trajetória é inspiradora e valorosa e espero ter me tornado o homem digno que a senhora educou, não sem dificuldades, para que possa honrar seus ensinamentos e continuar o seu trabalho de “limpeza” dos caminhos daqueles que ainda virão, depois de nós. Espero que o reencontro marcado com meu pai, naquele dia de nuvens cinzas e de lágrimas, ainda demore a acontecer. A senhora é e sempre foi minha fortaleza e meu cais e espero ser o seu apoio e sua sentinela nos anos vindouros. Obrigado, minha mãe. Aguyjevete, che sy.
Giovani José da Silva
Saúde
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