Giovani José da Silva
Último texto do ano, o de número 120 desde que comecei a escrever para O Pantaneiro. Lá se vão cinco anos, desde aquele 19 de novembro de 2013. Não escrevi com a regularidade prometida (semanal), mas me esforcei para colocar na tela do computador pensamentos/ sentimentos que desejava expor, convidando meus leitores à reflexão e à autocrítica. Ano que vem tentarei honrar o compromisso de escrever ao menos uma vez por semana e irei discorrer mais vezes sobre Educação, assunto que sem dúvida merece ser tratado nesse espaço. Sempre que me perguntam por que me tornei professor, a resposta vem rápida, sem titubeios: para “criar” gentes que saibam argumentar, se posicionar, enfim, gentes autônomas no pensamento e na ação. Infelizmente, o que se assiste em nosso país, há muito tempo, é justamente o contrário: quando a pessoa atravessa toda a Educação Básica, muitas vezes aos trancos e barrancos, e consegue sair “certificada” do sistema, não passa de alguém com atitudes e pensamentos autômatos. A diferença básica entre autômatos e autônomos é que os primeiros aguardam um “salvador da pátria”, alguém que lhes dirá o caminho a seguir, pois não pensam por si mesmos e tampouco agem por vontade própria. Os autônomos, diversamente, são aqueles que sabem expor suas ideias com argumentos, que não se irritam facilmente com refutações, que aceitam estar errados caso assim se apercebam, enfim, que fazem a hora e não esperam acontecer, agindo com serenidade e solidariedade. Quantas gentes já passaram pela minha vida e que só fizeram/ faziam aquilo que se esperava delas e não o que realmente queriam: casaram, tiveram filhos, estudaram para ter status social/ dinheiro, ao invés de satisfazer necessidades que lhes eram caras... Um autômato sabe responder a questionários, consegue boas pontuações em concursos, lê manuais com destreza e aperta os botões certos. Sua educação, bancária por excelência, como diria Paulo Freire, lhe incutiu a ideia de que bom é quando o país continua desigual e ele fará de tudo para estar ao lado dos “vencedores” ou de quem ele acredita que venceu. Um autônomo pode até se tornar um reacionário, mas o saberá fazê-lo argumentando, observando que a sua disposição há uma miríade de escolhas, inclusive as mais nefastas para a sociedade. Desde o começo dos estudos para a carreira de professor eu queria ser autônomo: todos liam Marx e os marxistas e eu queria descobrir outras possibilidades de se explicar o mundo, além daquelas adotadas por “quase todo mundo”. Enveredei pela Antropologia, quando percebi que à História escapava algo que é humano, demasiadamente humano: as gentes (como eu, como você, caro leitor) não fazem tudo o que dizem e nem dizem tudo o que fazem. Isso vale para os documentos escritos, também: nem tudo o que está contido neles foi realizado, de fato, por quem os produziu. Ali há intenções não declaradas abertamente, representações, sentidos e significados enviesados. Além disso, deve-se sempre perguntar sobre aqueles que não tinham/ tiveram o poder de registar suas próprias vidas, ordinárias demais para figurar em algum processo-crime ou carta régia. Ser autônomo significa mais do que ter inteligência cognitiva (relativa ao mental/ cerebral): é ter inteligências afetiva/ emocional, psicomotora, corporal e espiritual. A vida não pode ser medida apenas pela quantidade de artigos publicados em um Lattes: é necessário ter mais sensibilidade, menos arrogância/ prepotência, saber pedir desculpas quando se erra, voltar atrás se alguém lhe sinaliza de que foi longe demais. O autômato quer ter razão: ele votou no “cara” certo e mesmo que mostrem a ele que o “rei está nu”, prefere acreditar que tudo não passa de intriga de opositores, pois ele continuará buscando não argumentos, mas “verdades” prontas e acabadas. O autônomo sabe escutar, pois não tem a necessidade, quase um vício, de ter sempre a razão, de ter a última palavra, de estar certo o tempo todo. Aliás, deve ser um fardo demasiadamente pesado assumir tal papel. Enfim, caros leitores da coluna Histórias de admirar: que em 2019 sejamos menos (ou nada) autômatos e mais, cada vez mais, autônomos em nossos pensamentos, nossas atitudes e nossos procedimentos. Somente uma postura de autonomia garantirá que sobreviveremos coletivamente e que a luz no fim do túnel não seja o trem vindo ligeiro em nossa direção...
Giovani José da Silva
Saúde
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